Enquanto a China domina a produção de baterias, a Europa aposta em pequenas empresas de tecnologia ponta a ponta, como LeydenJar e Powall, na Holanda. Elas usam técnicas de semicondutores para criar componentes ultrafinos que aumentam a vida útil e a velocidade de recarga, buscando um lugar seguro na cadeia global.
Nos últimos anos, a Europa sofreu com várias tentativas malsucedidas na indústria de baterias.
A Northvolt, da Suécia, e a Morrow, da Noruega, foram à falência, gerando o medo de que o continente perdeu mais uma revolução tecnológica.
Os desafios do mercado de baterias
Como mais veículos e indústrias estão substituindo combustíveis fósseis por eletricidade, as baterias devem ser um negócio em forte crescimento.
No entanto, o tempo necessário para lançar novos produtos e a concorrência brutal, especialmente da China, tornam qualquer investimento uma aposta de alto risco.
A solução pode estar em uma escala quase invisível aos olhos humanos. Um número crescente de investidores e pesquisadores acredita nisso.
Um nanômetro é um bilionésimo de metro, mas é nessa escala que algumas das mudanças mais importantes estão acontecendo.
Se você conseguir fazer isso funcionar, isso afeta muitas indústrias, mas é um negócio arriscado, diz Christian Rood, CEO da empresa de tecnologia holandesa LeydenJar.
- Uma empresa sueca (Northvolt) e uma norueguesa (Morrow) faliram ao tentar entrar no mercado.
- A LeydenJar usa silício puro ultrafino para evitar que a bateria quebre com o tempo.
- A técnica vem da indústria de microchips, permitindo camadas muito finas e resistentes.
- A produção em larga escala deve começar no final de 2026, após 10 anos de pesquisa.
- A aposta da Europa é não construir fábricas gigantes, mas dominar peças tecnológicas críticas.
A empresa tem esse nome em homenagem a um precursor de 1800 das pilhas elétricas.
A LeydenJar usa uma técnica chamada deposição por plasma para criar um ânodo (parte central da bateria) mais leve e eficiente.
O silício é barato e muito bom para baterias, mas ele expande e contrai quando o aparelho é usado e recarregado, o que faz ele rachar e quebrar.
Com sua técnica, a LeydenJar consegue criar uma folha de silício puro extremamente fina, camada por camada, que resiste às rachaduras.
Isso permite aumentar a vida útil, a velocidade de recarga e a capacidade de armazenamento em até 50%, segundo a empresa.
Onde um ânodo de silício puro normalmente se desmoronaria, o nosso permanece estável. Foi uma invenção maravilhosa, conta Rood.
Inovação vinda do mundo dos microchips
Estamos resolvendo o gargalo da bateria.
A produção em escala comercial começará no final de 2026, mas levou 10 anos para chegar a esse ponto, o que define o custo e tempo das inovações de base tecnológica.
Não é à toa que a fábrica da LeydenJar está em Eindhoven, na Holanda, cidade onde também fica a ASML, gigante em microchips.
Muita gente fala de ecossistemas na teoria; eu posso dizer que isso é uma das nossas vantagens competitivas, diz Rood.
É a transição de semicondutores para baterias que nos diferencia. Depois que provamos a teoria no laboratório, a industrialização exige trabalhar com a tecnologia de chips e seus fornecedores.
Isso traz muito risco, mas também muitas oportunidades de patentes e proteção de propriedade intelectual. Isso é muito mais difícil de fazer nos EUA ou na China.
Na Holanda e na Europa, há várias outras startups menores tentando desenvolver nanotecnologia para baterias.
Uma delas é a Powall, em Delft, que cria equipamentos para aplicar camadas nanométricas nos pós que são a matéria-prima das baterias.
Também aqui a escala é minúscula, e a técnica veio da indústria de semicondutores.
Grãos individuais de pó medem micrômetros, e as camadas medem nanômetros, aplicadas por deposição atômica.
Roderik Colen, CEO da Powall, explica que o sistema permite melhorar o desempenho das baterias atuais.
Sua bateria funciona pior depois de milhares de usos. Esse envelhecimento pode ser retardado com uma nano-revestida, diz Colen.
Você pode ter um material novo com maior capacidade ou recarga rápida, mas ele costuma durar pouco.
Por isso, esses materiais nunca se tornariam produtos comerciais sem ajuda.
É aí que entramos, para dar o revestimento protetivo que viabiliza esses novos materiais.
Como a China pode reagir e os desafios do financiamento
Os pós e a camada protetora são levados por gás e combinados em uma reação química.
É um processo preciso, mas flexível, que pode ser adaptado de forma quase infinita, segundo Colen.
Você pode controlar exatamente a espessura, e isso faz a diferença no desempenho.
Nem a LeydenJar nem a Powall tentam construir uma bateria inteira. Ambas vendem para clientes na Ásia.
Mas Rood acredita que empresas assim fortalecem a posição da Europa na disputa global.
A comparação é simples: nos semicondutores, há uma corrida pela melhor tecnologia.
A ASML não fabrica chips; ela foca em uma etapa crítica da produção e, assim, tem poder de fala. Queremos o mesmo com nosso ânodo de bateria.
Alexander Brown, analista do instituto Merics, em Berlim, elenca a importância de isso.
Ter uma parte da cadeia na Europa é ótimo, especialmente se for uma tecnologia avançada com boa margem de lucro, diz Brown.
Mas ele alerta que a China vai buscar alternativas locais.
A China se esforça para criar substitutos, inclusive para tecnologias de nicho.
É público e sabido que a China quer substituir a ASML, e não dá para descartar que vai conseguir um dia.
A Europa tem força em criar produtos de alta qualidade, mas isso não deve ser a única estratégia dos governos.
Os desafios não são só técnicos. A LeydenJar já produziu em escala, mas financiar a operação é difícil.
Há financiamento na Europa, mas a cultura do risco é diferente da Ásia e dos EUA, diz Rood.
Isso obriga a usar fontes diversas ao mesmo tempo: subsídios, dívidas, bancos e investidores privados.
Eles impõem condições difíceis e querem fazer suas próprias análises. É um trabalho duro.
Colen disse que a Europa é uma potência na inovação, mas a tecnologia de baterias só dará certo se houver disposição para o risco.
É uma indústria jovem, com fábricas sendo construídas em todos os lugares. Estão buscando a tecnologia certa. É uma chance de ter papel importante, porque os volumes são enormes.
Assim, o lugar da Europa pode não ser construir fábricas gigantescas, mas sim dominar o outro extremo da escala.
Como diz Colen: pequenas mudanças fazem grandes diferenças.

Empresas chinesas dominam a produção de baterias







