28 de julho de 2026

Brasil precisa de regras para receber data centers e garantir beneficios

Tecnologia DataCenters 28/07/2026 08:11 Rafael Cardoso - Reporter da Agencia Brasil agenciabrasil.ebc.com.br

Pesquisadores defendem planejamento, transparencia e regras para garantir que o pais se beneficie com a chegada de grandes centros de dados, evitando danos ambientais e sociais.

A expansao dos data centers no Brasil exige planejamento, transparencia e regras que garantam beneficios ao pais e reduzam impactos socioambientais. Essa avaliacao foi feita por pesquisadores em um debate realizado nesta segunda-feira (27), em Niteroi, na Regiao Metropolitana do Rio de Janeiro, como parte da programacao da 78a Reuniao Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciencia (SBPC).

  • Data centers sao grandes galpoes cheios de computadores que armazenam dados da internet, como fotos, videos e informacoes de sites.
  • Eles consomem muita energia eletrica, equivalente a capacidade de abastecer milhoes de pessoas.
  • Pesquisadores alertam que o Brasil pode ser explorado, como ja aconteceu no passado com outros recursos naturais.
  • A instalacao desses centros pode causar poluicao sonora, gastar muita agua e prejudicar comunidades pobres.
  • Especialistas defendem que o pais crie regras claras para que esses projetos tragam beneficios reais para a populacao.

Os professores Mauro Oliveira, do Instituto Federal do Ceara (IFCE), e Dan Levy, da Universidade Federal de Sao Paulo (Unifesp), defenderam que a instalacao de grandes centros de processamento de dados precisa ser acompanhada de politicas publicas e maior participacao da comunidade cientifica.

Para Mauro Oliveira, o Brasil corre o risco de repetir uma logica historica de exploracao de recursos naturais sem garantir contrapartidas para o desenvolvimento nacional.

"O problema nao e receber data centers. O problema e receber esses investimentos sem negociacao. O Brasil precisa definir o que quer exigir em troca", disse Mauro.

Segundo o pesquisador, a discussao sobre data centers ainda esta restrita a poucos setores e deveria mobilizar universidades, governo e sociedade. Ele argumentou que esses empreendimentos trazem desafios relacionados ao consumo de energia, a soberania digital e ao controle da infraestrutura tecnologica.

Oliveira citou o projeto de instalacao de um grande data center voltado a inteligencia artificial no Ceara. Segundo ele, a unidade devera consumir cerca de 300 megawatts de potencia, demanda equivalente a capacidade de abastecimento de milhoes de pessoas.

"O mundo, hoje, nao consegue produzir energia suficiente para atender a demanda projetada pelos data centers de inteligencia artificial", disse.

Alem da energia, Oliveira defendeu que o pais estabeleca mecanismos permanentes de monitoramento, auditoria e transparencia sobre os projetos.

"O papel das universidades e participar desse debate. Nao somos contra os data centers. Somos contra a ausencia da universidade na discussao sobre as condicoes em que eles estao sendo implantados", disse.

Impactos

Sob a perspectiva do direito ambiental, Dan Levy argumentou que os impactos provocados pelos data centers vao alem do consumo de agua e energia. Segundo ele, tambem devem ser considerados efeitos como poluicao sonora, pressao sobre recursos naturais, conflitos territoriais, desigualdades sociais e riscos para comunidades vulneraveis.

"A transicao digital e a transicao ecologica nao podem ser tratadas como processos independentes. E preciso incorporar criterios de sustentabilidade, transparencia e participacao social", defendeu o pesquisador.

Segundo Levy, as comunidades diretamente afetadas precisam participar das decisoes relacionadas a implantacao desses empreendimentos e nao apenas arcar com seus impactos.

O pesquisador tambem associou a expansao dos data centers ao conceito de colonialismo digital, segundo o qual paises do Sul Global passam a fornecer recursos naturais, como energia, agua e territorio, para sustentar a infraestrutura tecnologica das grandes empresas do Norte Global.

"A gente nao e contra o desenvolvimento. A questao e como esse desenvolvimento e realizado e quem suporta seus custos", concluiu.


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