07 de junho de 2026

Jogadores enfrentam indústria para impedir que jogos sejam desligados

Tecnologia Games 07/06/2026 09:10 Laura Cress bbc.com

Uma campanha de consumidores, chamada Stop Killing Games, está lutando para que empresas de videogame não possam simplesmente desligar os servidores de jogos online, deixando os jogadores sem acesso a algo que compraram. O movimento já conseguiu uma audiência no Parlamento Europeu e busca leis que obriguem as empresas a oferecer uma saída, como permitir que o jogo funcione offline, quando decidirem encerrar o suporte online.

Você já pensou em comprar um carro e, do nada, a montadora vir na sua casa e levar ele embora No mundo dos videogames online, isso pode acontecer. As empresas podem simplesmente desligar os servidores de um jogo, deixando ele sem jeito de jogar.

  • A campanha Stop Killing Games já juntou mais de 1,2 milhão de assinaturas na Europa.
  • O movimento começou depois que a Ubisoft desligou o jogo The Crew, que tinha mais de 12 milhões de jogadores.
  • Uma lei na Califórnia pode obrigar empresas a darem reembolso ou manter o jogo jogável.
  • Jogos online que dependem de servidores são chamados de 'live-service' e estão cada vez mais comuns.
  • A indústria diz que manter servidores para jogos antigos é caro e difícil.

Stop Killing Games é um movimento de defesa do consumidor que começou em 2024, criado pelo youtuber americano Ross Scott. Ele quer desafiar essa prática.

Em janeiro, o grupo entregou uma petição com quase 1,3 milhão de assinaturas para a Comissão Europeia. Isso fez com que acontecesse uma audiência pública no Parlamento Europeu em abril. O que começou como uma campanha online agora espera uma decisão de uma das instituições mais poderosas da União Europeia.

O caso que começou tudo: o jogo The Crew

A campanha de Scott começou depois que a grande empresa Ubisoft anunciou que iria desligar o jogo de corrida The Crew em 2024. Esse jogo só podia ser jogado online.

A empresa francesa disse que estava tirando o jogo do ar por causa de problemas com os servidores e licenças. O jogo teve mais de 12 milhões de jogadores durante sua vida.

Para jogadores como Chemicalflood, que jogou The Crew por quase dez anos, a decisão foi pessoal. Ele disse: 'Eu tinha uns 18 anos quando o jogo lançou - foi uma parte importante da minha vida adulta. Era uma forma de escapar dos problemas, então sempre foi especial para mim.'

Com o tempo, o jogo virou algo que ele compartilhava com os filhos, que adoravam explorar uma versão virtual dos Estados Unidos. 'O desligamento em si não foi triste, mas a forma como fizeram foi um tapa na cara', explicou.

Para Chemicalflood e muitos fãs, o problema não foi a Ubisoft parar de dar suporte. Foi o fato de que os jogadores perderam o acesso ao jogo para sempre.

O que a Stop Killing Games quer, afinal

O anúncio da Ubisoft chamou a atenção de Ross Scott, que já fazia conteúdo sobre o problema de posse de jogos há anos. 'Eu odeio ver trabalhos criativos sendo simplesmente destruídos', ele me disse.

Ele rapidamente decidiu começar uma campanha, chamando-a de Stop Killing Games - 'matar' se refere a quando 'cada cópia daquele jogo que já foi vendida foi desativada, e ninguém no planeta pode jogar'.

Whammy4, um jogador que criou a comunidade de fãs The Crew Unlimited, comparou a situação a 'alguém invadindo sua casa e roubando sua bicicleta ou seu carro'. 'Você compra uma cópia física de um jogo, leva para casa, instala e joga por um tempo. De repente, a editora destrói todas as cópias do jogo no mundo, incluindo a sua. Sem reembolso, sem aviso na hora da compra, e nada que você possa fazer para manter o jogo.'

A resposta da indústria

A Ubisoft já se defendeu na justiça. Em resposta a um processo na Califórnia, a empresa argumentou que os clientes compraram uma licença para usar o jogo, não o jogo em si, e que os jogadores foram avisados de que os serviços online não durariam para sempre. O processo foi arquivado em junho de 2025.

A indústria de jogos também se posicionou contra a campanha. O grupo Video Games Europe, que representa as maiores empresas, disse que desligar servidores 'precisa ser uma opção' quando os jogos não são mais viáveis. Eles também alertaram que algumas propostas da campanha poderiam tornar os jogos online muito mais caros.

Scott rebate: 'Não estamos pedindo que as empresas mantenham servidores rodando para sempre. Elas podem encerrar quando quiserem.' O que eles querem é que, quando um jogo for desligado, isso seja feito de forma 'responsável', com planos como atualizar o jogo para funcionar offline ou liberar softwares que permitam que os jogadores continuem jogando.

O problema dos 'live-service'

Embora The Crew tenha sido o estopim, muitos outros jogos foram desligados de repente. O problema ficou maior com o crescimento dos jogos 'live-service', que dependem de internet para funcionar.

Em maio, a Sony anunciou que ia parar de dar suporte ao jogo Destruction AllStars. E o jogo Concord, também da Sony, foi tirado do ar menos de duas semanas depois do lançamento em 2024, porque não conseguiu atrair jogadores. Nesse caso, os clientes receberam reembolso.

O professor Joost van Dreunen, da NYU Stern, explica que, ao contrário de livros, filmes ou música, muitos jogos são construídos em torno de comunidades e interação online. 'Jogos, especialmente live-service, são mais como comunidades digitais e menos como experiências de consumo.' Mas manter essas comunidades está cada vez mais difícil em um mercado dominado por sucessos como Fortnite e Call of Duty.

A campanha chega ao parlamento

A campanha está sendo travada em várias frentes. A Comissão Europeia tem até 27 de julho para responder à petição. Em março, um grupo de consumidores francês processou a Ubisoft pelo desligamento de The Crew.

O governo do Reino Unido, por enquanto, resiste aos pedidos por novas leis. Embora uma petição tenha conseguido um debate no parlamento, os ministros disseram que não pretendem mudar a lei do consumidor.

Nos Estados Unidos, os ativistas apoiam uma lei na Califórnia que obrigaria as empresas a manter os jogos jogáveis ou oferecer reembolsos. O projeto já passou na Assembleia estadual e agora está sendo analisado pelo Senado.

Para Scott, a jornada tem sido longa e cansativa, mas ele não consegue imaginar desistir. Ele e sua equipe sabem que podem levar meses ou anos até encerrar a campanha, mas o debate que começaram não mostra sinais de sumir tão cedo.


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