28 de outubro de 2026

Começar a comer doces demais pode deixar criança míope: entenda o perigo

Saúde Miopia 28/10/2026 14:02 Rafael Damas / Notícias ao Minuto noticiasaominuto.com.br

Estudo internacional revela que o abuso de açúcar e carboidratos eleva em 41% o risco de miopia na infância. Especialistas explicam que a dieta ultraprocessada afeta a estrutura do olho e que a exposição ao sol e o uso correto de telas são fatores cruciais para a prevenção do problema visual.

Um estudo publicado no British Journal of Nutrition, que contou com 2.473 participantes entre 12 e 18 anos, revelou um dado alarmante: o consumo abusivo de doces e carboidratos aumenta em 41% o risco de desenvolver miopia. O cenário no Brasil preocupa ainda mais quando confrontado com o relatório de 2026 da Federação Mundial de Obesidade, que aponta que 40% das crianças e adolescentes com até 18 anos estão com sobrepeso ou obesidade. Essa situação é mais frequente entre famílias de baixa renda, devido ao alto consumo de alimentos ultraprocessados ricos em gordura e carboidratos.

O impacto direto na saúde ocular é explicado pelo oftalmologista Leôncio Queiroz Neto, diretor executivo do Instituto Penido Burnier e fundador da ABRACMO (Academia Brasileira de Controle da Miopia e Ortoceratologia). Segundo ele, a esclera, que é a parte branca do olho e funciona como o arcabouço do globo ocular, é afetada negativamente por essa dieta. O excesso de açúcar compromete o aporte de oxigênio, nutrientes e a circulação de sangue, impactando a coroide, responsável por nutrir a esclera.

Principais pontos sobre a ligação entre alimentação e visão infantil

  • Doces e carboidratos em excesso aumentam em 41% o risco de miopia.
  • A má alimentação enfraquece a esclera, permitindo que o olho cresça além do normal.
  • Nutrientes como ômega-3 e antioxidantes ajudam a mitigar a progressão do problema.
  • A exposição solar diária é essencial para endurecer a esclera e prevenir a alta miopia.
  • A regra 20/20-20 é fundamental para descansar os olhos após o uso de telas.

De acordo com o especialista, o baixo fluxo sanguíneo e de oxigênio causa três efeitos no branco do olho: menor produção de colágeno, alteração do metabolismo e aumento de enzimas que degradam os tecidos. Como consequência, a esclera enfraquece, torna-se mais maleável e facilita o crescimento do olho acima do tamanho ideal. Esse alongamento do eixo do olho é a principal característica fisiológica da miopia, fazendo com que a imagem se forme à frente da retina em vez de diretamente sobre ela.

É importante esclarecer que o estudo é observacional. Portanto, não permite concluir que a mudança de alimentação ou suplementação sozins podem reverter ou interromper a miopia já estabelecida. Contudo, há indicações de que certos nutrientes, especialmente o ômega-3, antioxidantes e vitaminas específicas, podem modular os fatores fisiológicos envolvidos na progressão da doença. Estes agem como coadjuvantes, funcionando em conjunto com outras terapias e não como um tratamento isolado para curar a miopia.

Como o sol protege os olhos das crianças

A exposição ao sol por 1 a 2 horas por dia é considerada uma ferramenta de prevenção contra a progressão para a alta miopia, definida como acima de 6 dioptrias. A alta miopia é uma condição que pode causar glaucoma, descolamento de retina, retinopatia miótica e degeneração macular. Essa prática já colheu frutos no Japão, que neste ano adotou recreios em espaços abertos nas escolas e contabilizou uma pequena queda no número de crianças míopes.

Queiroz Neto explica que o sol possui um efeito de 'crosslinking' (enrijecimento) sobre a esclera. Isso torna a estrutura do olho mais rígida, impedindo o alongamento característico da miopia. O especialista alerta que, embora não garanta que a criança não se torne míope, praticar atividades ao sol pode prevenir a alta miopia, uma das principais causas de glaucoma, catarata precoce e perda de visão definitiva.

Sinais de alerta e o uso de telas

Os pais devem ficar atentos a sinais comuns em crianças míopes que muitas vezes passam despercebidos. Entre eles estão: apertar os olhos para enxergar à distância, aproximar-se demais da TV e do celular, queda no rendimento escolar, evitar esportes em grupo, cair com frequência e ter dores de cabeça recorrentes no fim do dia. Muitas vezes, a criança nem sabe que não enxerga bem por falta de referência do que é a visão normal. Por isso, o acompanhamento oftalmológico regular é indispensável. Um levantamento realizado no hospital de Queiroz Neto com 36 mil crianças mostrou que enxergar mal dificulta o aprendizado em 50%.

O uso de telas é um dos principais fatores de risco para a miopia, especialmente antes dos 8 anos, idade em que o olho completa seu desenvolvimento. Um estudo com 360 crianças de 6 a 10 anos, conduzido pelo oftalmologista, demonstrou que o esforço visual excessivo causa espasmo nos músculos ciliares. Isso leva à miopia acomodativa, que é diferente da miopia patológica (onde o olho cresce). Como os olhos ainda estão em formação, a miopia acomodativa pode ser revertida com mudanças de hábito. A regra 20/20/20 sugere que, a cada 20 minutos de tela, a criança olhe para um ponto a 6 metros de distância por 20 segundos. Essa pausa relaxa os músculos e recompõe a capacidade de enxergar em todas as distâncias.

Novas tecnologias no combate à miopia

A explosão de casos de miopia no mundo impulsionou o desenvolvimento de novas formas de tratamento. Hoje, utilizam-se lentes de contato, óculos especiais e lentes ortoceratológicas que aplanam a córnea durante o sono, permitindo que a criança veja bem sem correção durante o dia. Existem também óculos desenhados para controlar a progressão da doença, buscando preservar a saúde ocular. Esses tratamentos podem ser usados junto com colírio de atropina diluída a 0,01%.

Em vez de apenas corrigir a imagem, esses métodos atuam sobre a doença, fazendo com que as imagens se formem sobre a retina, e não à frente dela. Em 12 anos, houve uma grande evolução nessas plataformas, chegando-se a óculos que também corrigem aberrações visuais, pequenas imperfeições que impedem uma visão nítida. O sucesso do tratamento depende da adesão do paciente, que deve usar a lente entre 10 e 12 horas por dia (no caso das lentes de contato), seguir a regra 20/20/20 e passar por acompanhamento oftalmológico semestral. O controle da progressão previne doenças oculares graves que podem causar dependência permanente na visão na vida adulta.


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