23 de outubro de 2026

Doença silenciosa que ataca os rins: entenda os sintomas e novos tratamentos

Saúde Saude 23/10/2026 10:05 Jéssie Costa / Redação

A nefrite lúpica é uma inflamação nos rins causada pelo lúpus que pode evoluir sem sintomas iniciais. O texto detalha os desafios do diagnóstico, os efeitos dos corticoides e as novas terapias que buscam reduzir sequelas e facilitar a vida dos pacientes.

O lúpus eritematoso sistêmico é uma doença que pode afetar vários órgãos do corpo, incluindo os rins. Quando os rins são comprometidos, a condição é chamada de nefrite lúpica. O grande perigo dessa doença é que ela pode evoluir sem apresentar sintomas claros nas fases iniciais, o que dificulta o diagnóstico precoce.

Segundo estimativas da Sociedade Brasileira de Reumatologia, entre 150 mil e 300 mil brasileiros vivem com lúpus. Cerca da metade dessas pessoas pode desenvolver nefrite lúpica ao longo da vida, o que corresponde a um total de 75 mil a 150 mil casos. Em parte desses pacientes, a doença pode levar à perda irreversível da função renal. Além disso, o tratamento é longo e exige acompanhamento médico constante, com consultas, exames e uso regular de medicamentos.

  • 150 mil a 300 mil brasileiros convivem com lúpus, segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia.
  • Cerca de 50% dos pacientes com lúpus podem desenvolver nefrite lúpica.
  • O início da doença é silencioso, sem sintomas óbvios, dificultando o diagnóstico.
  • O tratamento prolongado exige cuidados com a saúde para evitar a perda da função renal.
  • Novas terapias buscam reduzir o uso de corticoides, que causam muitos efeitos colaterais.

Entenda como a doença afeta os rins

A nefrite lúpica ocorre quando o sistema imunológico do paciente desregulado ataca os próprios órgãos, causando inflamação nos rins. O alvo principal são os néfrons, pequenas estruturas responsáveis por filtrar o sangue e eliminar as impurezas pelo urina. Esse processo inflamatório pode fazer com que proteínas e células sangüíneas apareçam na urina.

Se o quadro não for controlado adequadamente, a inflamação pode causar a formação de cicatrizes nos tecidos renais. Essas cicatrizes levam à perda progressiva da capacidade do rim de funcionar, o que é um risco grave para a saúde do paciente.

Sintomas e desafios do diagnóstico

Diagnosticar a nefrite lúpica pode ser difícil porque o lúpus apresenta uma variedade de manifestações e, muitas vezes, não causa sintomas específicos no início do comprometimento renal. Entre os sinais que podem aparecer nas fases iniciais da doença, estão cansaço extremo, dores nas articulações e alterações na pele após exposição ao sol.

Quando os rins começam a ser afetados, surgem outros sinais de alerta, como pressão alta, inchaço nas pernas ou ao redor dos olhos, urina espumosa e redução no volume de urina produzida. Esses sinais indicam a necessidade de investigação médica imediata.

Um dos maiores desafios da nefrite lúpica é justamente o seu início silencioso. O médico reumatologista e professor da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Edgard Reis, afirma: "O paciente pode se sentir bem e, mesmo assim, já apresentar um processo inflamatório renal que leva à perda de proteína e células na urina sem perceber."

Exames para monitorar a saúde renal

Por ser assintomática no início, a doença exige vigilância constante. O acompanhamento médico inclui a realização de exames de urina, a quantificação da proteinúria (quantidade de proteína na urina) e a avaliação da creatinina no sangue, além do controle rigoroso da pressão arterial.

Como a creatinina pode permanecer dentro dos valores de normalidade nas fases iniciais da doença, a análise conjunta desses parâmetros é fundamental. Essa combinação de exames ajuda o médico a identificar alterações precocemente, antes que ocorram danos graves aos rins.

Impacto na vida cotidiana

Além dos riscos à função renal, a doença interfere significativamente na rotina dos pacientes. A necessidade de conciliar consultas, exames e a administração de medicamentos com atividades profissionais, familiares e pessoais é um dos grandes desafios do tratamento. A nefrite lúpica é mais comum em mulheres jovens, que muitas vezes estão em uma fase da vida marcada por estudos, trabalho, maternidade e projetos pessoais.

Edgard Reis explica a importância da adesão ao tratamento: "A nefrite lúpica exige tratamento prolongado, e a adesão é um dos grandes desafios. Quanto menos o tratamento interfere na vida, maior é a possibilidade de ele ser incorporado à rotina, e não de a vida do paciente passar a girar em torno do tratamento."

Depoimento de paciente: Camila Maia

A confeiteira Camila Maia, que convive com lúpus desde 2010, conhece bem os impactos da doença e do tratamento em sua vida. Ela esperou quase três anos até receber o diagnóstico de nefrite lúpica. Após isso, passou por um período de tratamento intenso e desenvolveu complicações que afetaram sua mobilidade e autoestima.

"Além de enfrentar a doença, sofri com as consequências do tratamento. As altas doses de corticoide mudaram meu rosto e meu corpo, afetaram minha autoestima e, com o tempo, deixaram sequelas. Desenvolvi osteonecrose nos quadris, joelhos e ombros, precisei passar por uma cirurgia e cheguei a ficar praticamente acamada, convivendo diariamente com dores intensas", conta Camila.

Hoje, cerca de nove anos após alcançar a remissão, ela trabalha, frequenta a academia e convive com algumas das limitações deixadas pela doença. "Ainda sinto dores constantes nos ossos, mas aprendi a conviver com elas. Essa doença não define quem eu sou", afirma.

Reduzindo o uso de corticoides

A redução da exposição aos corticoides é um dos principais objetivos no tratamento da nefrite lúpica. Esses medicamentos são importantes para controlar a inflamação, principalmente nos períodos de maior atividade da doença. No entanto, o uso prolongado e em doses elevadas está associado a diversos efeitos adversos. Segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia, a meta é buscar, em conjunto com o médico, a menor dose possível pelo menor tempo necessário.

Edgard Reis esclarece: "O corticoide é uma medicação extremamente eficaz para controlar rapidamente a inflamação e continua tendo papel importante na fase aguda. Dessa forma, o problema não é o corticoide em si, mas principalmente a dose acumulada e o tempo de exposição."

Entre os possíveis efeitos do uso prolongado de corticoides, especialmente em doses moderadas a altas, estão: ganho de peso, aumento da pressão arterial, alterações nos níveis de açúcar no sangue, perda de massa óssea, catarata, maior risco de infecções e alterações no humor e no sono.

Novas opções terapêuticas

A evolução da ciência ampliou as opções de tratamento, com medicamentos que atuam em diferentes mecanismos envolvidos na doença. De acordo com Edgard Reis, ensaios clínicos recentes mostram que, em pacientes selecionados, essas novas abordagens podem aumentar a possibilidade de resposta renal e permitir uma redução mais rápida da exposição aos corticoides.

"O conceito é usar o corticoide como uma ponte e terapia de transição, especialmente no início da doença, enquanto medicamentos mais específicos começam a atuar e assumir o controle da doença ao longo do tempo. As recomendações atuais procuram reduzir esses medicamentos para doses muito baixas e, sempre que possível, retirá-la", afirma o reumatologista.

Facilitando a adesão ao tratamento

A forma de administração dos medicamentos também pode influenciar a rotina dos pacientes. Existem opções orais, subcutâneas (injeções na pele) e intravenosas (na veia), com diferentes intervalos entre as administrações. Dependendo da estratégia adotada, parte do tratamento pode exigir deslocamentos até o hospital.

Esquemas mais espaçados podem reduzir a frequência das administrações e facilitar a adesão, sem dispensar o acompanhamento médico e os exames necessários para monitorar a atividade da doença e a função renal. Edgard Reis destaca: "Atualmente, existem opções orais, subcutâneas e intravenosas, com diferentes intervalos entre as administrações. Em determinados casos, esquemas mais espaçados podem reduzir a carga de administração e facilitar a adesão, sem diminuir a necessidade de acompanhamento, já que consultas e exames continuam fundamentais para monitorar a atividade da doença e a função renal. Primeiro precisamos ter eficácia e segurança, mas, entre estratégias adequadas, a comodidade também é muito relevante."

O tratamento da nefrite lúpica envolve o controle da inflamação, a preservação da função renal e a redução dos efeitos adversos associados às terapias. A escolha das estratégias considera a resposta clínica e a segurança, além da possibilidade de conciliar os cuidados necessários com a rotina dos pacientes. Em caso de dúvidas ou sintomas, consulte um médico reumatologista.


Aa

Receba atualizações

no seu e-mail