A nova epidemia de Ebola na República Democrática do Congo se tornou a mais mortal do país. O surto já se espalhou por sete províncias e a falta de vacinas para a variante atual agrava a crise humanitária na região.
A República Democrática do Congo enfrenta uma grave crise de saúde pública. Uma nova epidemia de Ebola, que começou em maio, já se tornou a mais mortal da história do país. Em apenas três meses, a doença causou quase 4 mil mortes, segundo uma série especial do programa Fantástico, da TV Globo.
A situação é alarmante: o surto se espalhou por sete províncias do país. Até o dia 31 de agosto, mais de 6 mil casos de infecção haviam sido registrados. Esse número supera os índices do último grande surto, que atingiu o leste do Congo entre 2018 e 2020.
- A epidemia é a 17ª registrada na história da República Democrática do Congo.
- A variante do vírus é a cepa Bundibugyo, para a qual não existem vacinas aprovadas.
- Mais de 6 mil casos foram confirmados até o fim de agosto de 2026.
- A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou emergência internacional de saúde pública.
- Grupos armados no leste do país dificultam o acesso das equipes de resgate.
Esforços para salvar vidas
Para entender a dimensão da tragédia, a jornalista Sonia Bridi e o repórter Paulo Zero embarcaram em um avião da Organização das Nações Unidas (ONU). O objetivo foi acompanhar os atendimentos no Centro de Tratamento de Ebola dos Médicos Sem Fronteiras (MSF), uma organização de ajuda humanitária.
Nesses centros de isolamento, os profissionais de saúde precisam usar equipamentos de proteção individual rigorosos. Eles vestem macacões, luvas, máscaras, gorros e proteções para o rosto. Essa barreira é essencial porque o vírus é transmitido pelo contato direto com fluidos corporais dos pacientes doentes.
Desafios no atendimento médico
O pediatra Mathias Vermaelen, que trabalha há duas semanas no centro da MSF, descreveu a rotina como intensa. "A gente trabalha seis em sete dias, mais ou menos. É muito intenso", relatou ao Fantástico. A carga de trabalho é pesada devido à alta quantidade de pacientes.
Além do esforço físico, os médicos enfrentam barreiras culturais e de confiança. Muitos pacientes têm medo de procurar os centros de tratamento. Isso ocorre devido a falsos boatos que circulam nas comunidades, afirmando que as pessoas estariam sendo mortas intencionalmente nos hospitais. Essa falta de informação dificulta o combate à doença.
Os números da epidemia
Os dados oficiais mostram a gravidade da situação. Até o início de setembro, a epidemia havia provocado mais de 3 mil mortes. A doença afeta principalmente as zonas de conflito no leste e nordeste do país, onde a presença do Estado é fraca.
Apesar da letalidade, houve casos de cura. O Instituto Nacional de Saúde Pública congolês (INSP) divulgou que cerca de 1.409 pacientes se recuperaram. Para contextualizar a gravidade, é importante notar que, nos últimos 50 anos, o Ebola já provocou mais de 15 mil mortes em toda a África.
A pior epidemia anterior na República Democrática do Congo, entre 2018 e 2020, deixou quase 2,3 mil mortos entre os 3,5 mil infectados. A atual crise, porém, tem se espalhado mais rápido e com maior letalidade nas primeiras semanas.
A perigosa cepa Bundibugyo
Um dos maiores problemas da atual epidemia é o tipo de vírus em circulação. O surto começou na província de Ituri e é causado pela cepa Bundibugyo. Diferente das cepas mais comuns, esta variante não possui vacinas nem tratamentos específicos homologados para uso em larga escala.
O vírus se propagou por seis províncias, atingindo áreas remotas com forte atuação de grupos armados. Isso impede que as equipes de saúde cheguem a todos os casos. Embora vários tratamentos e vacinas estejam em fase de testes contra a variante Bundibugyo, os medicamentos aprovados atualmente são eficazes apenas contra o vírus do Zaire, que causou as maiores epidemias anteriores.
O que é o Ebola e quais são os sintomas
A Doença pelo Vírus Ebola (DVE) é uma zoonose, o que significa que ela passa de animais para humanos. O morcego é considerado o reservatório mais provável do vírus. Quatro dos cinco subtipos do vírus, incluindo o Bundibugyo, ocorrem em hospedeiros animais nativos da África.
O nome da doença vem do Rio Ebola, onde os primeiros surtos foram registrados. Acredita-se que a transmissão para os seres humanos ocorre pelo contato com sangue, órgãos ou fluidos de animais infectados, como chimpanzés, gorilas, morcegos-gigantes, antílopes e porcos-espinhos.
Quando uma pessoa é infectada, o corpo reage com sintomas graves. Entre os principais sinais estão: febre, dor de cabeça, fraqueza generalizada, diarreia, vômitos, dor abdominal e manifestações hemorrágicas (sangramentos). O período de incubação, ou seja, o tempo entre a infecção e o aparecimento dos sintomas, pode variar de 2 a 21 dias. Na maioria dos casos, o período mediano é de 5 a 10 dias.
A confirmação do diagnóstico não é feita apenas pelos sintomas. É necessária a realização de exames laboratoriais específicos para detectar a presença do vírus no organismo do paciente.

Essa é a 17ª epidemia de ebola registrada na República Democrática do Congo. Foto: BENEDICTION MURHABAZI / AFP.





