A recusa das famílias é o principal motivo para a falta de órgãos disponíveis para transplantes em crianças no Brasil. Entre janeiro e julho de 2026, o país realizou apenas 278 transplantes pediátricos, segundo o Ministério da Saúde.
Felipe Oliveira Costa, 7 anos, hoje pode brincar de bola na própria casa, em Praia Paulistinha, bairro na zona sul de São Paulo. Há quatro meses, ele passou por um transplante de fígado.
Em abril de 2025, o menino teve uma reação grave a um medicamento, chamada síndrome de Stevens-Johnson. Ele foi internado e, sete dias depois, a família descobriu que o fígado tinha sido atingido.
- O fígado é o único órgão do corpo humano que consegue se regenerar após a doação de parte dele.
- Apenas 2% das notificações de doador falecido no Brasil se referem a crianças.
- Em 2025, as famílias recusaram a doação de órgãos em 45% dos casos.
- Mais da metade dos transplantes pediátricos (53%) usa órgãos de doadores entre 11 e 17 anos.
- O Brasil tem 829 hospitais autorizados a fazer transplantes, mas apenas 70 realizaram transplantes em crianças em 2025.
Como Felipe quase morreu sem receber um fígado
Após seis meses de tratamento, o problema evoluiu para cirrose hepática, que é o enfraquecimento grave do fígado. A mãe de Felipe, a esteticista Thais Angela da Costa, 37 anos, conta que o menino teve a barriga d'água e o fígado parou de funcionar direito. Os médicos recomendaram o transplante. Sem ele, a criança corria risco de morrer.
Felipe foi internado no Hospital Municipal Infantil Menino Jesus e o transplante foi feito no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.
"Ele ficou na lista de espera. Nós propusemos à família que, se aparecesse um fígado de doador falecido compatível com o tamanho e o peso do Felipe, faríamos o transplante. Se não aparecesse, seria interessante ter um doador vivo de preparação", explica o médico Eduardo Antunes da Fonseca, diretor do departamento de transplante hepático do Sírio-Libanês.
"Como não apareceu, conversamos com o pai, que se ofereceu para doar parte do fígado ao filho. Ele poderia morrer esperando pelo transplante", acrescenta o médico. O hospital Menino Jesus é gerenciado pelo IRSSL (Instituto de Responsabilidade Social Sírio-Libanês), em parceria com a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo.
O sacrifício do pai que doou parte do fígado ao filho
Além de parar de beber, o pai de Felipe, Abimael Maurício Oliveira Silva, 37 anos, auxiliar de almoxarifado, precisou perder peso. "Estava há seis meses sem beber, mas precisava chegar aos 90 quilos no mínimo; eu pesava 106. Tenho arritmia cardíaca e decidi ir assim mesmo", conta.
"Não tem coisa mais gratificante do que ver ele felizão desse jeito. Não sai mais da minha frente. Antes, era mais grudado com a mãe. Agora, me liga toda hora. Ele acha que eu o salvei, mas foi ele que me salvou e me salva todos os dias. É meu parceiro."
Pai e filho estão bem. Silva já voltou a trabalhar. Felipe continua em casa e vai voltar à escola no ano que vem. O menino faz acompanhamento médico regular.
O cirurgião José Sampaio, responsável pelo Serviço de Transplante Hepático do Hospital Pequeno Príncipe, no Paraná, explica que a parte do fígado doada por um adulto para uma criança é uma fração pequena do órgão. O procedimento causa pouco impacto na saúde de quem doa, e o fígado volta a crescer.
Por que faltam órgãos para crianças no Brasil
"O fígado cresce após a doação. O órgão que sobra expande seu volume de forma global", diz Sampaio.
Para Fonseca, a falta de doadores crianças é um dos maiores desafios para quem precisa de transplante. Apenas 2% das notificações de doador falecido se referem a crianças. O peso e a altura precisam ser compatíveis para que o órgão caiba no corpo do receptor.
De acordo com o Ministério da Saúde, doador vivo é a pessoa maior de idade, saudável, juridicamente capaz e que concorde com o transplante, desde que não prejudique a própria saúde. É possível doar um dos rins, parte do fígado, da medula ou dos pulmões. A compatibilidade sanguínea é obrigatória, e o médico também avalia o histórico de saúde do voluntário.
Números dos transplantes pediátricos no Brasil
O Brasil tem 829 serviços de saúde autorizados a fazer transplantes de órgãos. Em 2025, 70 deles realizaram transplantes pediátricos, segundo o Ministério da Saúde.
De janeiro a julho de 2026 (dados parciais), o país realizou 278 transplantes pediátricos de órgãos: 24 de coração, 114 de fígado e 140 de rim.
Em 2025, foram registrados 589 transplantes pediátricos de órgãos: 61 de coração, 211 de fígado, 2 de pulmão e 315 de rim.
O SUS adota uma lista única de espera, e a ordem de atendimento é baseada em critérios técnicos e clínicos, além da compatibilidade entre doador e receptor. O tempo na lista não é o único fator.
Por que as famílias recusam a doação
No caso de crianças, o tamanho do órgão precisa ser compatível com o corpo do receptor. Mais da metade dos transplantes pediátricos (53%) usa órgãos de doadores entre 11 e 17 anos.
A doação de órgãos de crianças depende da autorização de ambos os pais ou do responsável legal.
Para Fonseca, doar um órgão é se colocar no lugar do outro. "Pense no outro lado, coloque-se no lugar da outra pessoa. A doação de órgãos é o momento mais profundo da relação entre os seres humanos. Não existe uma conexão maior", afirma.
O doador morto é a pessoa que teve morte encefálica ou parada cardíaca. Ele pode doar órgãos (rins, coração, pulmão, pâncreas, fígado e intestino) e tecidos (córneas, válvulas, ossos, músculos, tendões, pele, cartilagem, medula óssea, sangue do cordão umbilical, veias e artérias).
Em 2025, a ABTO (Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos) registrou que as famílias de potenciais doadores recusaram a doação em 45% dos casos. Nos casos que envolvem crianças, a recusa é ainda maior.
"Grande parte das mortes encefálicas em crianças acontece por afogamento ou acidente que causa parada cardiorrespiratória. A família fica muito abalada e, quando fazemos a abordagem, muitas vezes a resposta é negativa", afirma Fonseca.
Nos casos de adultos, o principal motivo de recusa é a família não saber o que a pessoa gostaria em vida, afirma Sampaio. "Aí cabe campanha de esclarecimento para estimular as famílias a conversarem sobre qual seria a decisão de cada um", diz.

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