07 de junho de 2026

USP cria nanopartícula que trata doenças de pele com mais precisão

Saúde 06/06/2026 19:46 Agência SP agenciasp.sp.gov.br

Pesquisadores da USP em Ribeirão Preto desenvolveram uma tecnologia que usa partículas minúsculas para levar remédios diretamente às células da pele, combatendo inflamações de doenças como psoríase e vitiligo. A novidade foi apresentada em um evento internacional em Londres.

Uma plataforma tecnológica desenvolvida por pesquisadores brasileiros pode revolucionar o tratamento de doenças de pele como psoríase e vitiligo. O grupo, vinculado ao laboratório NanoGeneSkin, da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto, está desenvolvendo nanopartículas capazes de levar moléculas de RNA terapêutico diretamente até as células cutâneas, silenciando com precisão molecular os genes responsáveis pela inflamação crônica.

Os avanços mais recentes na pesquisa foram apresentados durante a FAPESP Week Londres, que acontece até amanhã (04/06) no Museu de Ciências (Science Museum), na capital britânica. A investigação ocorre no âmbito do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) de Nanotecnologia Farmacêutica, financiado pela FAPESP e pelo CNPq.

  • A tecnologia usa nanopartículas de cristal líquido, que são estruturas minúsculas feitas de gordura, para proteger o RNA e levá-lo até as células doentes.
  • O tratamento foca em silenciar genes específicos que causam inflamação na pele, sem afetar o resto do corpo, o que reduz efeitos colaterais.
  • A psoríase atinge cerca de 5 milhões de pessoas no Brasil e 190 milhões no mundo; o vitiligo causa a perda de cor da pele.
  • Os pesquisadores já testaram a técnica em células em laboratório e em animais, com resultados positivos na redução da inflamação.
  • Além da psoríase e vitiligo, a mesma plataforma pode ser usada no futuro para cicatrização de feridas e até em vacinas contra o câncer.

Silenciamento de gene

O RNA (ácido ribonucleico) é uma molécula presente em todas as células vivas e desempenha papel central na produção de proteínas. Em linhas gerais, o DNA funciona como o manual de instruções do organismo, e o RNA mensageiro é a cópia desse manual que chega até as fábricas de proteínas da célula. A abordagem central do grupo de pesquisa baseia-se no uso de RNA de interferência (siRNA) moléculas sintéticas que atuam diretamente sobre o RNA mensageiro responsável pela produção das citocinas inflamatórias, degradando-o antes que a proteína nociva seja sintetizada. É como interceptar e destruir a ordem de fabricação antes que ela chegue à linha de montagem. O resultado é a redução de mediadores da inflamação a níveis basais de células sadias, sem a necessidade de medicamentos que atuem em todo o organismo e que, por isso, tendem a causar mais efeitos colaterais.

Como funciona a entrega do remédio

Carregar essas moléculas até as células-alvo da pele não é fácil. O RNA é quimicamente frágil e é rapidamente destruído pelas enzimas do corpo. Além disso, a pele é uma barreira biológica eficiente, projetada para impedir exatamente o tipo de penetração que os pesquisadores precisam. A solução desenvolvida pelo grupo foram nanopartículas de cristais líquidos: estruturas feitas de gorduras (lipídios) com organização interna altamente ordenada, semelhante à dos cristais, mas com a fluidez dos líquidos. Essa arquitetura permite encapsular o material genético, protegê-lo da degradação e facilitar sua penetração na pele. Ao longo de três áreas de estudo, o grupo mostrou que essas nanopartículas funcionam para o silenciamento de genes; que métodos como a luz podem ajudar a liberar o RNA dentro das células; e que é possível carregar vários RNA e até remédios anti-inflamatórios convencionais na mesma nanopartícula.

Outras aplicações

O escopo do grupo vai além da psoríase. Pesquisas em andamento aplicam a mesma plataforma ao vitiligo área para a qual o grupo já possui uma patente envolvendo RNA e nanopartículas e à cicatrização de feridas crônicas, outro problema de saúde sem solução totalmente satisfatória. Há também uma frente que ultrapassa as doenças de pele: o desenvolvimento de uma nanoestrutura para entrega de mRNA o tipo de RNA mensageiro que instrui as células a produzirem uma proteína específica com potencial de uso em vacinas, incluindo uma vacina experimental contra o câncer. É o mesmo princípio que tornou as vacinas contra a COVID-19 possíveis: em vez de introduzir o vírus no organismo, introduz-se apenas a instrução genética para que o próprio corpo produza uma proteína característica do tumor, treinando o sistema imunológico a reconhecê-lo e combatê-lo. Com duas patentes depositadas e processos de escalonamento industrial em desenvolvimento, o grupo já pensa além da prova de conceito científica. Empresas já demonstraram interesse em licenciar a tecnologia, e o grupo está em conversas para avaliar os caminhos de levar a descoberta do laboratório até o paciente.


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