Estudantes de medicina brasileiros que moram na Argentina dizem ter recebido mensagens racistas, ameaças de morte e de estupro depois de torcerem contra a seleção argentina na final da Copa do Mundo.
Estudantes brasileiros que vivem na Argentina dizem que receberam ameaças de morte e de estupro, ofensas racistas e tiveram seus dados pessoais divulgados depois da final da Copa do Mundo, que foi vencida pela Espanha contra a Argentina no domingo (19).
- Estudantes brasileiros na Argentina receberam ameaças de morte e estupro após a final da Copa.
- Um veículo de imprensa local publicou fotos e perfis de brasileiros que não torceram pela Argentina.
- Os dados pessoais dos alunos, como endereços e números de documentos, foram espalhados em redes sociais.
- Uma estudante de medicina recebeu mais de mil mensagens de ameaça em um único dia.
- As vítimas planejam registrar boletim de ocorrência e buscar ajuda do consulado brasileiro.
Segundo os alunos ouvidos pela reportagem, a hostilidade começou depois que um veículo de imprensa local publicou fotos e perfis de redes sociais de brasileiros que não torceram pela Argentina na decisão. As publicações os chamavam de ingratos por estudar no país.
A partir daí, os dados dos estudantes começaram a circular em redes sociais, principalmente no X (antigo Twitter). Endereços, números de documentos e perfis foram reunidos e compartilhados. Uma planilha com informações de brasileiros foi divulgada na plataforma, de acordo com os relatos.
Medo de sair de casa
Uma estudante de medicina que mora no país há quatro anos afirma ter recebido mais de mil mensagens em um único dia, por SMS, ligações, e-mail e aplicativos. Ela diz ter encontrado o próprio endereço, retirado de um documento argentino, exposto na internet.
"Recebi ameaças de morte, de linchamento, de que vão me encontrar na rua e me matar. Até foto de arma recebi", conta. "Minha família e eu estamos com medo até de sair de casa."
A jovem diz que passou a torcer pela Espanha porque achou o comportamento de parte da torcida argentina xenofóbico. Afirma não ter desrespeitado símbolos nacionais e diz ter adiantado uma viagem ao Brasil por segurança. "Tenho medo de pisar na rua", diz. Segundo ela, os pais pensam em adiar o retorno ao Brasil para ficar ao lado dela.
Ameaças à família
Outra brasileira, que estudou na Argentina desde 2022 e hoje mora no Paraguai, cancelou uma viagem que faria ao país nesta semana. Ela contou à CNN que passou a receber ataques depois de publicar, em suas redes, uma comemoração pelo título espanhol.
"Passaram a me ameaçar de estupro, de morte, a dizer que, se me pegassem na rua, iam me matar", afirma. "Ameaçaram a minha família e mandaram e-mails para a minha antiga faculdade pedindo minha expulsão."
A estudante diz ter desativado as redes sociais depois de receber dezenas de pedidos de mensagem com ofensas. Conta que comentários com termos racistas foram publicados em seus vídeos.
Mensagens de ameaça
Entre as mensagens que a reportagem teve acesso, há ofensas raciais e ameaças diretas. Em uma delas, escrita em espanhol, um usuário diz: "ingrata, volte a comer bananas no seu país". Em outra: "macaca de merda, filha da puta, tomara que te estuprem".
Um dos textos, enviado em português, afirma: "Quando eu te vir na universidade, pode ter certeza de que você vai sofrer. (...) Seu macaco brasileiro de merda, volte para o seu país". A mensagem inclui ameaça de morte e de agressão a animais de estimação.
Outras mensagens vieram acompanhadas de foto de arma de fogo. "Na Argentina não brincamos", diz uma delas. Um usuário escreveu que o endereço, o telefone e as redes de uma das vítimas haviam sido divulgados.
Os estudantes afirmam que argentinos também enviaram e-mails e fizeram ligações a faculdades para pedir a expulsão de brasileiros. Sete pessoas teriam sido expostas inicialmente, mas o número de perfis divulgados aumentou nos dias seguintes, segundo os relatos.
Retaliação
De acordo com os alunos, episódios de racismo e xenofobia já aconteciam no ambiente universitário e se intensificaram depois da decisão. Alguns evitam se identificar por medo de retaliação.
Pelo menos uma das vítimas afirma que pretende registrar boletim de ocorrência na polícia argentina e procurar o consulado brasileiro. As condutas relatadas ameaça, ofensa racial e divulgação de dados pessoais podem ser consideradas crimes na legislação argentina.
Como os fatos ocorreram em território argentino, a investigação penal cabe às autoridades locais. O consulado do Brasil presta assistência a cidadãos no exterior, incluindo orientação jurídica e apoio em casos de violência.
A reportagem não divulga a identidade das vítimas a pedido delas, por segurança. As mensagens e capturas de tela foram fornecidas pelos próprios estudantes à CNN Brasil.

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