08 de novembro de 2026

Crise no Paraguai assusta brasileiros que sonham em mudar de país

Geral Crise 08/11/2026 06:43 g1 via Pauta Diária pautadiaria.com.br

A quebra do banco Ueno e a crise política no Paraguai geraram pânico entre brasileiros no país. Grupos nas redes sociais alertam para dinheiro retido, falta de empregos formais e os riscos financeiros de morar na vizinhança.

A crise bancária e política que atinge o Paraguai passou a preocupar também brasileiros que vivem ou pretendem se mudar para o país. Grupos nas redes sociais, que reúnem dezenas de milhares de brasileiros, têm sido utilizados para compartilhar informações sobre moradia, trabalho e negócios, mas também para relatar dificuldades enfrentadas no país.

Entre janeiro e outubro de 2026, brasileiros receberam 34.794 autorizações de residência no Paraguai. Esse número corresponde a 67% de todas as autorizações concedidas a estrangeiros no período, de acordo com dados da Direção Nacional de Migrações paraguaia.

  • 34.794 brasileiros receberam autorização de residência no Paraguai entre janeiro e outubro de 2026.
  • O banco Ueno, que pertencia ao Grupo Vázquez, entrou em liquidação com cerca de 3 milhões de clientes.
  • Havia aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos públicos retidos no banco, incluindo recursos da previdência social.
  • A frase 'Paraguai não é pra CLT' virou alerta comum em grupos de brasileiros sobre a falta de empregos formais.
  • O presidente Santiago Peña, ex-sócio do grupo dono do banco, anunciou sua renúncia após a abertura de processo de impeachment.

O perigo do dinheiro preso no banco

O crescimento da presença brasileira ocorre em meio à crise envolvendo o banco Ueno. A instituição deixou clientes sem acesso aos recursos depositados e provocou forte pressão sobre o governo do presidente Santiago Peña.

Brasileiros afetados pela crise passaram a utilizar grupos de WhatsApp e Facebook para compartilhar experiências e buscar informações sobre o que fazer com o dinheiro retido.

A médica Katrye Lucena, de 27 anos, relatou que teve o salário do mês retido. Ela ficou sem acesso ao dinheiro destinado a despesas básicas.

"Hoje, estou sem acesso aos meus recursos, inclusive para despesas básicas como aluguel e alimentação", afirmou a profissional.

Esse caso ilustra uma das principais preocupações entre brasileiros que mantêm recursos em instituições financeiras paraguaias. O medo da perda total do patrimônio é agora o tema central nas conversas.

A realidade dura do trabalho formal

Além da crise bancária, os grupos também funcionam como espaço de orientação para brasileiros que planejam deixar o Brasil. Há muitos alertas sobre as dificuldades para encontrar emprego formal.

Participantes discutem os altos custos de vida e a burocracia necessária para regularizar a permanência no país. A sensação é de que a porta de saída está mais difícil do que parecia.

Uma das frases que mais aparece nas discussões é direta: "Paraguai não é pra CLT". Isso indica a escassez de contratos com proteção trabalhista.

Um engenheiro civil que afirma trabalhar no Paraguai há 17 anos também aconselhou brasileiros a não tomarem decisões precipitadas. A recomendação compartilhada nos grupos é que interessados pesquisem as condições reais de vida e trabalho antes de deixar o Brasil.

Cuidado com o 'kit ilusão' na internet

Outro alerta identifica o que os participantes chamam de "kit ilusão". Essa expressão é usada para criticar conteúdos na internet que apresentariam uma visão excessivamente positiva e irreal sobre a vida no Paraguai.

"Sentem, planejem, busquem fontes reais", escreveu um integrante, destacando a necessidade de verificação de dados concretos.

Os grupos também são utilizados por brasileiros que pretendem abrir negócios no país. Entre as dúvidas aparecem questões relacionadas a restaurantes, fornecedores, produtos e hábitos de consumo da população local.

Redes sociais viram rede de sobrevivência

Para brasileiros que já vivem no Paraguai, os grupos também funcionam como uma espécie de rede de apoio para resolver questões do cotidiano.

O brasileiro Marcelo Bernard, de 26 anos, que mora em Presidente Franco, contou que utiliza os grupos para obter informações sobre restaurantes, mercados, serviços e outros aspectos da rotina.

Ele também relatou ter recebido recomendações sobre estabelecimentos comerciais e profissionais. Além disso, ele ajudou outras famílias brasileiras que planejavam se mudar para a região, compartilhando experiências práticas de adaptação.

Escândalo político e a saída do presidente

A situação ganhou dimensão política após o escândalo envolvendo o banco Ueno. O banco pertence ao Grupo Vázquez e entrou em processo de liquidação após o Banco Central identificar insuficiência de recursos para cumprir as obrigações da instituição.

O Ueno tinha cerca de 3 milhões de clientes e aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo recursos do Instituto de Previdência Social. A falência representa um golpe duro na credibilidade do sistema financeiro local.

A crise também atingiu diretamente Santiago Peña. O presidente havia sido acionista do grupo proprietário do banco até março de 2025, o que aumentou a pressão pública sobre seu governo.

Em meio à pressão política, Peña anunciou na quinta-feira (5) que pretendia renunciar ao cargo. No entanto, a Câmara dos Deputados aprovou a abertura do processo de impeachment contra o presidente, criando um cenário de instabilidade institucional.

Paraguai continua atraindo, mas com novos riscos

Apesar da crise, o interesse dos brasileiros pelo Paraguai continua elevado. A proximidade geográfica e a facilidade de trânsito mantêm a atração inicial.

Para Aníbal Orué Pozzo, pesquisador de relações entre Brasil e Paraguai e professor da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), o crescimento da presença brasileira é resultado de uma política de atração de investimentos e estrangeiros desenvolvida pelo Paraguai ao longo de mais de uma década.

Segundo ele, o país estruturou políticas para atrair investimentos e pessoas do Brasil. Esse processo ajudou a ampliar a presença brasileira em território paraguaio de forma consistente.

O cenário atual, porém, coloca uma nova preocupação. Além das oportunidades econômicas, brasileiros passaram a considerar também os riscos financeiros, políticos e as dificuldades de adaptação antes de decidir viver no Paraguai.


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