O número de contratos de crédito fundiário quase dobrou na região Sul entre 2024 e 2025, chegando a 383 operações no Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. Essa ferramenta permite que jovens agricultores comprem suas próprias propriedades com juros reduzidos, garantindo a sucessão no campo e evitando o êxodo rural, apesar de alguns desafios com a burocracia de documentação.
Ter a própria terra e continuar trabalhando na agricultura é o sonho de muitos jovens. No entanto, esse objetivo encontra obstáculos enormes: o preço alto das terras, a falta de documentos em dia e a burocracia para conseguir um empréstimo bancário.
Diante desse cenário, o crédito fundiário tem se destacado como a principal solução para viabilizar essas compras. Os dados mostram um crescimento expressivo na região Sul do Brasil, onde o crédito para agricultura familiar ganhou força e abriu portas para a nova geração de produtores.
- O salto nos números: Entre 2024 e 2025, o total de contratos na região Sul praticamente dobrou, passando de 191 para 383 operações.
- Recurso liberado: O valor liberado pelos bancos saltou de R$ 32,2 milhões para R$ 89,8 milhões, um aumento de quase 180% em um ano.
- Liderança no Sul: O Rio Grande do Sul foi o campeão em 2025, com 193 contratos, seguido pelo Paraná (124) e Santa Catarina (66).
- Fila de espera: No Paraná, cerca de 500 propostas de financiamento continuam na fila aguardando a liberação final pelo governo.
- Jovens no comando: Quase metade (45%) dos beneficiários do programa no Paraná em 2025 são jovens agricultores.
Caminho para a sucessão no campo
Para quem trabalha na roça, esse tipo de financiamento é a chance de construir patrimônio sem precisar abandonar o emprego na fazenda. É o caso de Diego, um jovem de 21 anos morador de Cantagalo, no Paraná. Ele luta para financiar a compra de uma área que já pertenceu à sua avó, mantendo a terra dentro da família.
No momento, o pedido do jovem está em análise final na esfera federal. Para chegar até aqui, foi preciso reunir um volume grande de papeis e cumprir várias exigências legais.
O crédito fundiário tem uma burocracia bastante grande. O meu ainda não saiu. Estamos ainda nos trâmites para que possa sair. Agora já está na análise federal. Acredito que logo vai sair, relata ele com otimismo.
Por que o dinheiro na conta é tão importante
As entidades que defendem os trabalhadores rurais apontam que a falta de acesso à terra é um dos principais motivos para os jovens deixarem o campo. Sem conseguir comprar uma propriedade para gerar renda, muitos acabam migrando para as cidades grandes em busca de empregos urbanos.
O crédito fundiário é um instrumento fundamental porque garante que esse jovem terá acesso à terra, à propriedade, afirma um dos representantes de entidades ouvidos pela reportagem.
Demanda supera a oferta de crédito
Apesar do bom crescimento nos últimos meses, a quantidade de pessoas que querem comprar terras ainda é maior do que o que os bancos conseguem aprovar. O setor estima que existam condições para contratar mais de 500 propostas que aguardam na fila.
Esse é o caso no Paraná, onde a plataforma de acompanhamento de projetos registra cerca de 500 demandas abertas. A meta da entidade local é ambiciosa: beneficiar mil famílias com esse crédito em um curto espaço de tempo.
O principal atraso, segundo os especialistas, está na documentação dos imóveis. Para que o banco libere o dinheiro, a terra precisa estar totalmente regularizada e georreferenciada, o que pode levar meses para ser concluído.
O desafio do preço do hectare
O valor da terra é outro ponto que complica a vida dos compradores. No Paraná, o valor médio por operação chegou a R$ 265,6 mil em 2025, o maior valor da região Sul. Mesmo assim, a estrutura do estado, com forte presença de pequenas propriedades, favorece a compra de áreas menores por herança ou sucessão.
É justamente por isso que os jovens são os principais beneficiários. No Paraná, 45% das operações de 2025 foram realizadas por esse público, que enxerga no programa uma porta de entrada acessível.
Decidimos acessar o crédito fundiário porque é um crédito com uma taxa de juros muito mais baixa, muito acessível para nós, para que eu possa continuar aqui ajudando e trabalhando junto com a minha família, afirma um dos agricultores entrevistados.
Como garantir a permanência do jovem no campo
Ter a terra em nome não é o fim da linha. Representantes do setor argumentam que, após a compra, o produtor precisa de um pacote de apoio completo para realmente se sustentar na atividade.
É necessário acesso a crédito para a produção (compra de sementes, insumos, etc.), assistência técnica e condições para vender a colheita. O jovem, a família, consegue sua propriedade, sua terra, e depois precisa acessar o crédito, a assistência técnica e extensão rural, acessar a agroindústria familiar para conseguir permanecer naquele território produzindo seus alimentos, destaca um dos entrevistados.
Ampliar esse conjunto de políticas públicas é o objetivo final. Com isso, o crédito para comprar a terra deixa de ser apenas uma assinatura em contrato e passa a ser a ferramenta que garante o futuro de uma nova geração de agricultores no Brasil.

Foto: Roberto Dziura Jr/AEN






