19 de setembro de 2026

Jovens estão viciados em apostas online e perderam fortunas

Geral 19/09/2026 15:15 Ana Lúcia Caldas - Agência Brasil agenciabrasil.ebc.com.br

Especialistas alertam para o aumento da dependência de jogos de azar entre adolescentes, com casos de dívidas milionárias e impactos graves na saúde mental. A Lei Felca entra em vigor neste ano para proteger menores.

Cada vez mais jovens buscam ajuda para se libertar da dependência das apostas online, segundo Luiz Carlos, integrante do grupo de apoio Jogadores Anônimos. Ele relata que é comum receber adolescentes a partir de 14 anos, acompanhados de psiquiatras, devido ao vício crescente em jogos de azar. A situação demonstra a urgência de medidas preventivas e educativas.

Luiz Carlos, de 71 anos, começou a jogar na década de 1980, quando o vício vinha através de máquinas de videopôquer. Ele conta que o acesso fácil pelo celular hoje faz o jovem carregar um cassino no bolso, o que amplia enormemente a exposição ao risco de dependência, diferentes dos tempos em que era necessário sair de casa para apostar.

Veja os principais pontos sobre o crescimento do problema entre a juventude brasileira:

  • Grupos de apoio já atendem adolescentes de 14 anos com vício severo em apostas.
  • Um jovem de 24 anos perdeu meio milhão de reais em seis anos de jogo.
  • O cérebro do adolescente ainda está em formação, aumentando o risco de compulsão.
  • A nova lei digital (ECA) entra em vigor neste ano para proteger menores.
  • 34% dos jovens deixaram de investir na faculdade por causa das dívidas de jogo.

O jovem Gustavo Pereira ilustra a gravidade do cenário. Aos 24 anos, ele relata que começou a apostar aos 18. Em seis anos, perdeu meio milhão de reais e enfrentou sérios problemas de saúde mental. A perda financeira gerou uma desvalorização do dinheiro na cabeça do jovem, que chegou a acreditar em valores fictícios na plataforma, ignorando a realidade da sua conta bancária.

Gustavo explica que o vício gerou uma sensação de ganância e desatenção à realidade. Ele dormia e acordava pensando em apostar. Após enfrentar depressão e síndrome do pânico, ele buscou ajuda. Hoje, ele está há dois meses sem jogar e vive de vender café nas ruas de Lages, em Santa Catarina, utilizando o Instagram para conscientizar outros jovens sobre a superação do vício.

Cérebro em formação e risco aumentado

Especialistas afirmam que a facilidade de acesso pelos celulares aumenta o risco entre os jovens. Dados do Unicef mostram que uma em cada cinco pessoas começa a jogar online aos 11 anos, índice que salta para 78% aos 12 anos. No Brasil, uma pesquisa recente com 1.912 estudantes revelou que 9,5% fizeram a primeira aposta aos 11 anos. A porcentagem de apostadores entre os alunos do 3º ano do ensino médio é de quase metade.

Pesquisas do IBICT indicam que canais voltados a crianças exploram a falta de maturidade financeira dos menores para fomentar apostas ilegais. Essa situação preocupa a sociedade e levanta questões sobre a regulação do conteúdo acessível aos menores de idade.

A psicóloga Mariana Kehl, da Sociedade Brasileira de Psicologia, explica a vulnerabilidade biológica dos jovens. O cérebro do adolescente ainda está em construção. O sistema de prazer e dopamina trabalha rápido, enquanto as áreas de controle de impulsos só amadam aos 20 anos. Isso faz com que o prazer da vitória seja intenso, mas sem a capacidade de frear a próxima aposta.

Casos reais e o impacto do vício

Além de Gustavo, outros membros do Jogadores Anônimos relatam a mesma dependência. Luiz Carlos está há 15 anos sem jogar e alerta sobre a diferença entre o passado e o presente. Antigamente, o vício exigia deslocamento físico; hoje, o celular transforma o ambiente doméstico em um casino, facilitando a recaída e o início do vício em idades cada vez mais precoces.

Carla Xavier, de 41 anos, e Rogério, de 53, estão há mais de um ano afastados do jogo, assim como Rodrigo, de 47 anos, há seis meses. Carla destaca que os usuários atuais chegam ao grupo em uma situação desesperadora. Muitos já estão endividados e sem esperança. O acesso fácil às apostas online fez com que o número de pessoas com problemas graves, incluindo pensamentos suicidas, aumentasse drasticamente.

Endividamento e prejuízos financeiros

Um relatório do IBICT aponta dados alarmantes sobre o impacto financeiro do jogo. Em 2024, cerca de 24 milhões de brasileiros apostaram. Destes, quase metade ficou endividada como consequência das perdas. O problema vai muito além do lazer e afeta a segurança econômica das famílias, gerando instabilidade social.

Tiago Braga, diretor do IBICT, explica que apostar não é investir, mas gastar. Quanto mais se aposta, menos recursos há para o futuro. Isso afeta diretamente o aluguel, a alimentação e a educação. Ele também aponta um risco grave: a associação entre endividamento por jogo e ideação suicida, um fator de saúde pública crítico.

Impacto no ensino superior

Os reflexos do vício atingiram também o mercado da educação. 34% dos entrevistados em uma pesquisa da ABMES disseram que precisaram parar de apostar para começar a faculdade em 2026. Para quem já estava estudando, 14% relataram atrasos no pagamento da mensalidade ou trancamento de matrícula.

Paulo Chanan, da ABMES, reforça que, para muitos jovens, o dinheiro da faculdade foi consumido pelo jogo. Isso cria uma barreira para a permanência no ensino superior. Outros 34% deixaram de investir em outros estudos e 33% pararam de frequentar a academia por falta de recursos.

Novas leis e proteção digital

O governo federal sancionou o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, conhecido como Lei Felca. A norma entrou em vigor em março de 2026 e atualiza a proteção de menores no ambiente virtual. O foco principal é a responsabilidade compartilhada entre plataformas, famílias e o Estado no combate ao uso indevido por jovens.

Um dos grandes avanços é o fim da simples declaração de idade (a famosa marcação de


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