01 de setembro de 2026

Fungos da Caatinga podem proteger plantações e aguentar calor extremo

Geral Agricultura 01/09/2026 08:21 Embrapa canalrural.com.br

Pesquisadores descobriram que fungos do solo da Caatinga podem ajudar a combater doenças em plantações e resistir a temperaturas altas. Eles podem ser usados para criar novos produtos agrícolas mais resistentes ao calor.

Pesquisadores descobriram que fungos encontrados no solo da Caatinga podem ajudar a controlar doenças nas plantações e também aguentar temperaturas muito altas. Isso pode levar à criação de bioinsumos (produtos naturais) mais resistentes ao calor.

O estudo analisou 14 tipos desses fungos, de cinco espécies diferentes, coletados em áreas de vegetação nativa e lavouras de melão na Bahia e no Piauí. Os microrganismos foram testados para ver se conseguiam combater doenças, aguentar calor e produzir esporos (sementes dos fungos) em quantidade para uso comercial.

  • Fungos da Caatinga podem combater doenças que afetam plantações.
  • Alguns fungos foram encontrados em lavouras de melão.
  • Eles conseguem aguentar temperaturas de até 40°C.
  • A pesquisa é de cientistas da Embrapa.
  • Ainda precisam ser feitos testes no campo antes de virar produto.

Os resultados mostram que alguns fungos conseguem atacar micro-organismos que causam podridões e murchas nas plantas. Além disso, os fungos vindos de áreas cultivadas suportaram melhor o calor.

Segundo os pesquisadores, essas características podem ajudar a criar biofungicidas, ou seja, produtos naturais para combater doenças, que sejam adaptados ao clima seco e quente do semiárido. Porém, ainda é preciso fazer mais testes no campo.

Fungos encontrados em áreas nativas e lavouras de melão

Os cientistas identificaram cinco espécies: Trichoderma asperellum, Trichoderma asperelloides, Trichoderma koningiopsis, Trichoderma virens e Trichoderma spirale.

A composição desses fungos mudou conforme o tipo de solo e o uso da terra.

A Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro, com chuvas raras e temperaturas altas. Nas áreas do semiárido, a agricultura irrigada está crescendo, especialmente o cultivo de melão.

O cultivo intensivo pode aumentar doenças no solo, como as causadas por Fusarium, Macrophomina, Rhizoctonia e Pythium. Esses micro-organismos geram podridões e murchas, que prejudicam a produtividade.

Gabriel Mascarin, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente e um dos autores do estudo, diz que entender a relação entre microrganismos benéficos e patógenos pode ajudar a reduzir o uso de fungicidas químicos e se adaptar às mudanças climáticas.

Como os fungos combatem doenças

Os fungos do tipo Trichoderma agem de várias formas: competem por nutrientes com os organismos causadores de doenças, parasitam outros fungos e liberam substâncias que inibem o crescimento deles.

Algumas espécies também fortalecem as defesas naturais das plantas, ajudam no crescimento e aumentam a tolerância a estresses, como seca e salinidade.

No estudo, os cientistas analisaram dois modos de ação: o contato direto, com competição e parasitismo, e a produção de compostos voláteis (gases) que impedem o desenvolvimento dos patógenos mesmo sem contato.

Os testes foram feitos contra cinco micro-organismos que causam doenças: Fusarium sulawesiense, Fusarium solani, Macrophomina phaseolina, Rhizoctonia solani e Pythium myriotylum.

Fungos de áreas agrícolas aguentam mais calor

Um dos resultados mais importantes foi que os fungos coletados em lavouras de melão resistiram melhor ao calor do que os da vegetação nativa.

Os fungos foram testados em temperaturas de até 40°C. A 25°C e 30°C, todos cresceram parecido. As diferenças apareceram a partir de 35°C.

Espécies como Trichoderma asperellum, Trichoderma asperelloides e Trichoderma virens, vindas de solos agrícolas, mostraram maior resistência ao calor.

Os pesquisadores acham que isso acontece porque esses microrganismos se adaptaram ao ambiente de lavoura irrigada, que tem temperaturas altas e variações de calor.

A resistência ao calor é importante para criar produtos biológicos, pois muitos microrganismos usados comercialmente podem não funcionar bem em condições diferentes das de onde vieram.

Fungos reduziram crescimento de patógeno em mais de 70%

Os testes também mostraram que a forma de combate varia conforme o tipo de doença.

Contra Rhizoctonia solani e Macrophomina phaseolina, o contato direto foi mais eficiente. Os fungos de Trichoderma cresceram por cima dos patógenos, usando competição e parasitismo.

Já contra Pythium myriotylum e Fusarium (principalmente Fusarium solani), a produção de compostos voláteis foi a mais eficaz. Em alguns casos, esses compostos reduziram o crescimento do patógeno em mais de 70%.

Entre os fungos testados, o Trichoderma koningiopsis foi o mais consistente, atuando bem contra todos os patógenos e nos dois modos. O Trichoderma virens também funcionou, mas com resultados menos uniformes.

Produção de esporos é fundamental para uso comercial

Além de combater doenças, os pesquisadores avaliaram a produção de esporos, essencial para fabricar produtos em escala industrial.

Os fungos foram cultivados em arroz parboilizado. Os melhores produtores foram Trichoderma asperelloides e Trichoderma asperellum, que geraram mais de 1,4 bilhão de conídios por grama de substrato após dez dias.

Um achado interessante: alguns fungos que eram ótimos contra doenças produziam poucos esporos. Isso indica que a capacidade de controle biológico nem sempre vem junto com a facilidade de produção em fábrica.

Características do solo interferem nos fungos

O estudo também encontrou uma relação entre a química do solo e quais espécies de Trichoderma aparecem.

Trichoderma virens e Trichoderma asperellum preferem solos com mais fertilidade, fósforo e matéria orgânica.

Trichoderma spirale aparece mais em solos ácidos, com alumínio e ferro, típicos de ambientes naturais pouco manejados.

Rodrigo Mendes, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, diz que os resultados mostram que tanto a natureza quanto as práticas agrícolas afetam as comunidades de micro-organismos da Caatinga.

Pesquisa pode contribuir para novos biofungicidas

A biodiversidade da Caatinga pode oferecer micro-organismos adaptados ao calor e à falta de água.

A expectativa é que produtos feitos com fungos do próprio bioma sobrevivam melhor e durem mais nessas condições do que produtos vindos de outras regiões.

Antes de virar produto, são necessários mais estudos: testes em campo, verificar se os fungos colonizam plantas de melão e medir efeitos no crescimento e na produtividade.

Outra ideia é usar combinações de várias espécies ou tipos de Trichoderma para melhorar o controle de doenças e a resistência das plantas ao estresse hídrico e térmico.


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