18 de agosto de 2026

Fundo de R$ 100 milhões: brasileiros investem em terras na Bolívia

Geral Bolívia 18/08/2026 07:42 Gustavo Lustosa - AgFeed agfeed.com.br

A gestora brasileira Riza Asset lançou um fundo de R$ 100 milhões para investir em terras na Bolívia, em parceria com a Yata. O objetivo é comprar e desenvolver 22 mil hectares para produção de soja e milho, aproveitando terras mais baratas que no Brasil.

Depois que grandes produtores foram para a Bolívia, agora investidores da Faria Lima também querem investir em terras agrícolas no país.

A Riza Asset, uma gestora que administra cerca de R$ 25 bilhões, criou um fundo de US$ 20 milhões (cerca de R$ 100 milhões) para comprar e desenvolver 22 mil hectares no Beni, região norte da Bolívia, perto da fronteira com Rondônia.

Resumo

  • Fundo de US$ 20 milhões (cerca de R$ 100 milhões) para investir em terras na Bolívia.
  • Compra de 22 mil hectares no departamento de Beni, perto da fronteira com Rondônia.
  • Parceria com a Yata Investment Management, que já atua na região.
  • Transformação de pastagens em áreas de soja e milho.
  • Venda das terras em até 8 anos.

Segundo Paulo Mesquita, sócio da Riza e líder da área de agro, em entrevista ao AgFeed, o fundo funciona em parceria com a Yata Investment Management, que já trabalha na região há quatro anos. O objetivo é transformar pastos em áreas de soja e milho e vender as terras em até oito anos. A captação está aberta e vai até outubro.

Com isso, o mercado financeiro segue o caminho que produtores brasileiros já tomam há anos. Nomes como Eraí Maggi, do Grupo Bom Futuro, e Mônica Marchett, do Grupo Mônica, aumentaram seus investimentos na Bolívia, atraídos pela terra barata e pelo potencial agrícola.

A diferença é que, com a Riza, o investidor não precisa comprar uma fazenda ou cuidar da produção. Ele entra por meio de um fundo, e a operação local fica com a Yata.

Mesquita conta que investiu em terras na Bolívia como pessoa física há alguns anos com a Yata, e agora as duas empresas se juntaram para criar um fundo para esse mesmo objetivo.

'O fundo vai comprar áreas em uma região de cerrado, mas com muita chuva e solo argiloso. Compramos esses 22 mil hectares para um fundo de oito anos', explicou o gestor durante o Congresso Andav 2026.

Paulo Mesquita considera o Beni uma região menos desenvolvida na agricultura boliviana. Enquanto Santa Cruz, onde Maggi investe na Chiquitânia, já tem produção consolidada, o Beni ainda tem pouca soja, mas tem muita terra, chuvas regulares e potencial de expansão.

A soja e outras culturas começaram a crescer em Santa Cruz nos anos 1980 e 1990, quando chegaram produtores brasileiros, principalmente do Sul. Hoje, segundo Mesquita, lá é mais difícil comprar grandes áreas a preços baixos como antes.

O AgFeed apurou que Maggi aumentou a compra de terras no ano passado e já tem entre 30 mil e 40 mil hectares na Bolívia.

Em março, no Fórum Empresarial Brasil-Bolívia, na Fiesp, Maggi defendeu investimentos em infraestrutura e comparou os desafios de logística com os que os agricultores enfrentaram em Mato Grosso há 50 anos.

O Beni é mais um passo nesse processo. 'Essa região está começando agora', disse Mesquita. O departamento fica na fronteira com Rondônia, a cerca de 200 km do Brasil. De lá até Porto Velho são cerca de 600 km.

A família Marchett é uma das pioneiras. Começou com soja e hoje tem quase 100 mil hectares na Bolívia, entre agricultura, armazenagem, pecuária e genética.

No Beni, Mônica Marchett tem um projeto de cerca de 60 mil hectares, com áreas experimentais de soja e cana-de-açúcar, usando integração lavoura-pecuária-floresta.

Uma fonte do setor disse que terras no norte da Bolívia podem custar até 20% menos que em Rondônia. Mas os preços variam muito conforme infraestrutura e localização.

Há relatos de terras vendidas por US$ 50 por hectare em lugares remotos. Em áreas com melhor logística, podem chegar a US$ 1,5 mil. Para transformar pasto em plantação, é preciso investir cerca de US$ 300 por hectare.

Por isso, o plano do fundo da Riza é desenvolver as terras. Depois da captação e das compras, devem gastar cerca de dois anos para abrir estradas e converter pastos.

A partir do quinto ou sexto ano, começam a vender as terras, como um private equity imobiliário: compram áreas com potencial, investem no desenvolvimento e vendem com lucro.

'O trabalho pesado é feito pela Yata, que está na Bolívia, e a Riza busca os investidores no mercado', explicou Mesquita.

A Riza não planeja, por enquanto, um segundo fundo na Bolívia. A oferta do fundo do Beni ainda está aberta e a prioridade é terminar a alocação antes de buscar novas oportunidades.

O maior desafio, segundo Mesquita, não é a falta de investidores, mas encontrar propriedades com boa terra, potencial de desenvolvimento e documentação regular. 'Temos dificuldade de achar bons ativos com regularidade fundiária', disse.

A operação no Beni é pequena perto dos R$ 5,5 bilhões que a Riza tem em fundos do agro. A gestora trabalha com crédito e terras. No crédito, tem o Fiagro RZAG11, com R$ 679 milhões. No setor de terras, o Terrax tem R$ 1,8 bilhão e usa estratégias como sale and leaseback, buy to lease e land equity.

Segundo Mesquita, a Riza está terminando de alocar o Terrax Vintage, um fundo de R$ 400 milhões captado no fim de 2025, e prepara novas captações. Um próximo fundo deve ser feito com o Banco XP.

A Riza também montou fundos com bancos como Itaú, Santander e Original, misturando crédito e imóveis rurais.

A estratégia de terras cresceu quando o crédito rural ficou mais apertado, com produtores pedindo recuperação judicial e alongando dívidas. Para a Riza, isso não trouxe grandes problemas.

Em seis anos e meio, a Riza fez mais de R$ 3 bilhões em crédito para o agro. Só houve uma recuperação judicial e mesmo assim não virou calote, segundo Mesquita.

O caso foi um CRA da Uniggel Sementes, do Grupo Formoso. A Riza já começou a executar a garantia, que é a alienação fiduciária de terras.

'Foi uma recuperação judicial, mas não virou calote. Estamos recebendo e ajustando com o produtor', disse. Ele espera liquidar o ativo em três ou quatro meses sem prejuízo.

A Riza também quer investir em florestas a partir de 2027. Em 2022, comprou a Eco Brasil Florestas, com 50 mil hectares abertos e 35 mil de eucalipto.

'Há demanda de investidores brasileiros e internacionais para esse tipo de ativo. É muito estável', afirmou.

O Valor Econômico informou que a Riza está montando um Fiagro de R$ 1 bilhão para eucalipto, com prazo de 15 anos e foco em cinco propriedades, totalizando 20 mil hectares.


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