30 de julho de 2026

O fim da terra fácil: Brasil pode parar de expandir áreas agrícolas

Geral Agronegócio 30/07/2026 14:40 Kieran Gartlan - AgFeed agfeed.com.br

A corrida de 50 anos do Brasil para abrir novas fronteiras agrícolas pode estar chegando ao fim. A próxima fase de crescimento deve se concentrar em melhorar e produzir mais a partir da terra já em uso.

Em meados dos anos 2000, um jovem e promissor agricultor de Idaho, Scott Harker, chegou ao oeste da Bahia atrás do que parecia ser uma das grandes pechinchas agrícolas da época: terra a cerca de US$ 100 o acre (medida usada nos Estados Unidos, equivalente a 0,4 hectare).

Quatro décadas antes, os números eram ainda mais difíceis de acreditar. O nova-iorquino Ed Zanini comprou e depois perdeu grandes áreas de Mato Grosso por pouco mais de US$ 1 o acre.

  • O Brasil pode parar de expandir a área de soja pela primeira vez em mais de 20 anos, segundo um relatório do Rabobank.
  • No passado, terras eram compradas muito baratas, mas o custo real de transformá-las em fazendas produtivas era muito alto.
  • A nova fase do agronegócio brasileiro será focada em melhorar a terra que já está sendo usada, e não em abrir novas áreas.
  • Comprar novas terras está ficando mais caro e arriscado por causa de juros altos, preços baixos da soja e falta de infraestrutura.
  • Investir em tecnologia, recuperação de pastagens e irrigação pode ser mais vantajoso do que expandir para novas regiões.

É claro que aquelas não eram realmente fazendas. Ainda não.

Eram enormes extensões de cerrado, muitas vezes sem estradas, eletricidade, comunicações confiáveis ou grande parte da infraestrutura necessária para produzir e escoar uma safra. O preço da terra era baixo porque quase tudo o mais ainda precisava ser construído.

Eu cobri ambas as histórias durante meus anos como jornalista na DTN. À distância, pareciam histórias sobre comprar terra barata. De perto, eram histórias sobre como a terra barata pode se tornar cara.

O alerta do Rabobank

Um relatório publicado esta semana trouxe aquelas velhas histórias de fronteira de volta à mente. Nele, o Rabobank aponta que espera que a área de soja do Brasil pare de se expandir na safra 2026/2027, a primeira pausa em mais de 20 anos.

Isso levanta a possibilidade de que a longa corrida por novas terras agrícolas esteja finalmente perdendo impulso, o que marcaria uma mudança significativa.

O crescimento agrícola do Brasil dependeu por muito tempo de transformar terra barata e não desenvolvida em fazendas produtivas. No entanto, o baixo preço de compra frequentemente escondia o custo real.

Solo pobre, infraestrutura fraca, logística cara e anos de investimento significavam que esses hectares nunca foram verdadeiramente fáceis.

O fim de um modelo de crescimento

O que pode estar terminando agora não é o trabalho duro, mas o velho modelo de crescimento.

Em vez de encontrar a próxima área a abrir, o foco passa a se deslocar para produzir mais a partir da terra já desmatada.

Essa tem sido a realidade na maioria dos mercados agrícolas desenvolvidos por décadas. O Brasil pode agora estar entrando na mesma fase.

Por muitos anos, a expansão ofereceu aos agricultores duas fontes de retorno: a renda das safras que produziam e a valorização da terra que cultivavam. À medida que estradas, armazéns e cidades próximas se desenvolviam, a terra que antes parecia remota e marginal se tornava cada vez mais valiosa.

Isso tornava a expansão atraente, mesmo quando a economia operacional inicial era difícil. Uma fazenda não precisava gerar todo o seu potencial imediatamente se a região ao redor estivesse se desenvolvendo, a infraestrutura melhorando e o valor da terra subindo.

Com o tempo, isso se tornou um dos motores por trás da emergência do Brasil como superpotência agrícola. A soja migrou do Sul para o Cerrado, depois mais para o Norte e Oeste. Cidades surgiram onde havia pouco mais que poeira, arbustos e uma estrada de terra.

O que vem pela frente

Se a área de soja realmente parar de crescer, o Brasil ainda pode encontrar crescimento aproveitando melhor a terra que já cultiva.

Isso pode significar maiores produtividades, mas também recuperar pastagens degradadas, melhorar o solo, integrar lavoura e pecuária, usar água e insumos com mais cuidado e investir em tecnologia que produza mais valor a cada hectare.

A pressão vem principalmente da economia da expansão. Preços mais fracos da soja, juros altos e insumos caros podem tornar a melhoria da terra existente mais atraente do que a abertura de novas áreas.

Muitas das regiões de fronteira remanescentes também estão mais distantes dos portos, são mais caras de preparar e mais difíceis de operar.

Cada novo hectare se torna, portanto, uma aposta mais complicada. No passado, a valorização da terra e margens mais amplas podiam compensar logística fraca, solos difíceis ou vários anos de retornos decepcionantes.

Hoje, há menos espaço para carregar esses custos enquanto se espera a fazenda amadurecer.

Os agricultores provavelmente pensarão com mais cuidado sobre para onde o próximo real deve ir. Comprar outra propriedade ainda pode fazer sentido, mas correção de solo, irrigação, insumos biológicos, armazenagem, automação e melhor uso dos dados podem oferecer um retorno mais claro.

A fronteira não desapareceu, mas o limite para expandir-se sobre ela está aumentando.

Desafios da nova fase

Melhorar a terra existente não é um substituto simples para a expansão.

Recuperar pastagens, corrigir o solo, instalar irrigação ou modernizar armazéns exigem capital, muitas vezes antes que os benefícios sejam visíveis. Isso é difícil quando as margens estão apertadas e muitos agricultores estão focados em preservar caixa.

Também não existe uma fórmula universal. O investimento certo depende da cultura, do solo, da água, da localização e da qualidade da gestão.

A intensificação pode reduzir a pressão sobre a vegetação nativa, mas apenas se elevar genuinamente a produtividade, em vez de simplesmente empurrar a pecuária e o desmatamento para mais longe na fronteira.

Para o Brasil, isso marcaria uma mudança mais profunda do que uma pausa na área de soja.

O crescimento futuro do país dependeria menos de encontrar o próximo pedaço de terra barata e mais de entender o que a terra já em uso pode se tornar.

Scott Harker e Ed Zanini pareciam estar comprando acres extraordinariamente baratos. Na realidade, o preço de compra era provavelmente a parte mais barata do negócio. Eles estavam assumindo o custo e o risco de transformar terra bruta em fazendas.

Durante grande parte dos últimos 50 anos, essa foi a história agrícola do Brasil: encontrar a próxima fronteira, enfrentar as dificuldades e construir algo onde quase nada existia antes.

O próximo capítulo pode ser menos "Velho Oeste", mas não menos importante. Será sobre transformar fazendas em fazendas melhores.

A fronteira ainda está lá. Ela simplesmente se moveu para dentro da porteira.

Kieran Finbar Gartlan é sócio-diretor da The Yield Lab Latam.


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