Os números da pecuária brasileira mostram que o aumento da produção de carne está mais ligado à melhora da produtividade do que a uma redução drástica no número de animais. O USDA, dos Estados Unidos, prevê uma grande queda no rebanho, mas muitos especialistas brasileiros discordam, apontando que o setor está mais moderno e eficiente.
A última atualização do USDA, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, estima que o rebanho brasileiro terá 169,1 milhões de cabeças em 2026. Isso significa uma redução de 24 milhões de cabeças em relação aos dados de 2023.
Em 2024, mesmo com o IBGE mostrando que o rebanho ficou praticamente estável, o USDA calculou uma queda de 5,7 milhões de cabeças. Esse comportamento continuaria se repetindo até 2026, contrariando a própria metodologia que foi adotada recentemente para acompanhar o rebanho brasileiro.
- O USDA estima que o rebanho brasileiro pode cair para o mesmo nível de 22 anos atrás, em 2004.
- Especialistas brasileiros acreditam que a produção de carne está crescendo por causa do aumento da produtividade, e não pela redução do número de animais.
- Os dados do USDA e do IBGE sobre o rebanho brasileiro não estão batendo, gerando confusão no mercado.
- A pecuária moderna está mais eficiente: os animais são abatidos mais cedo e o pasto é melhor aproveitado.
- Entender o que realmente está acontecendo com o rebanho é fundamental para os pecuaristas tomarem decisões corretas.
Em 2022, após reuniões intermediadas pela Abiec, o USDA adotou a metodologia sugerida pela Athenagro. Essa metodologia usa os dados censitários e as variações divulgadas pela Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM), ambos do IBGE. Portanto, não deveriam apontar queda para 2024.
Nesse cenário divulgado pelo USDA, o rebanho voltaria aos mesmos níveis de 22 anos atrás, em 2004, de acordo com o próprio órgão.
Já a produção de carne bovina brasileira foi projetada pelo órgão do governo norte-americano em 12,37 milhões de toneladas (2026), um volume similar ao da Athenagro, que compõe as estatísticas do Beef Report.
A publicação, mantida pela Abiec, tornou-se referência sobre a dimensão da pecuária de corte no Brasil. Para 2026, por ora, a Athenagro estima uma produção de 12,45 milhões de toneladas, pouco acima do ano anterior.
Embora os números de produção sejam próximos, as explicações que os sustentam são diferentes. Enquanto trabalhamos com o aumento da produtividade na pecuária brasileira, a leitura do órgão norte-americano baseia-se na liquidação do rebanho, comportamento corroborado por parte das análises divulgadas no Brasil.
Essa projeção de queda no rebanho, caso seja confirmada, implicaria em uma considerável redução na produção a partir dos próximos meses e anos. Com base nessas premissas foram desenhadas projeções de preços bem mais elevados para o mercado do boi ao longo de 2025 e no decorrer de 2026.
O cenário é possível, mas consideramos pouco provável.
Os números da pecuária brasileira vêm mostrando um comportamento diferente, muito mais relacionado à produtividade do que a uma liquidação crítica na quantidade de animais do rebanho.
Além de diversos indicadores que comprovam o melhor desempenho da pecuária brasileira, uma análise mais aprofundada dos próprios dados do USDA aponta alguns desencontros que precisarão ser corrigidos nas próximas publicações.
No primeiro relatório de divulgação dos dados, que posteriormente foram revisados, o USDA apontava 89,65 milhões de vacas no rebanho brasileiro, entre leite e corte. A quantidade das vacas totalizaria cerca de 50% do estoque inicial do rebanho e geraria 47,2 milhões de cabeças de bezerros.
A quantidade de bezerros equivale a 52,6% da quantidade de vacas disponíveis, indicador comum até o final da década passada. A partir dos anos 2020, a quantidade de bezerros em relação à quantidade de vacas aumentou dez pontos percentuais, conforme análise a partir das informações do MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária).
De qualquer forma, é possível checar a coerência, ou incoerência, entre as informações divulgadas. A partir dos dados de variação do rebanho e do abate, calcula-se a quantidade de novos animais adicionados ao plantel. Como não há informação detalhada sobre as mortalidades por categorias, optamos por chamar de desmamas viáveis adicionadas ao rebanho, visto que o rebanho do país só pode crescer pela reprodução, quando não há importações.
Nesse cálculo, o adicionado, de acordo com a Athenagro, é de 48,1 milhões de cabeças em 2026. Ainda assim, pela mudança na estrutura do rebanho, a produção de bezerros no ano foi estimada em 52,5 milhões de cabeças de machos e fêmeas, conforme a última projeção da empresa.
O mesmo cálculo sobre os números do USDA leva a um total de 41,8 milhões de desmamas viáveis adicionadas ao rebanho, 6,3 milhões de cabeças abaixo do número gerado pela Athenagro.
Interessante é que, em ambos os casos, a quantidade de animais de até 12 meses no rebanho representa em torno de 24,5% do total. O comportamento dos dados do departamento norte-americano relacionados a abate, rebanho e estimativa de desmama é uma evidência da necessidade em dedicar maior esforço para analisar a estrutura do rebanho. Os dados não se conversam, o que compromete as conclusões e, consequentemente, as decisões formuladas a partir delas.
Em termos econômicos, o raciocínio do USDA é clássico, atribuindo a maior parte do aumento da produção ao movimento típico de ciclo pecuário.
É bem provável que o rebanho tenha recuado entre 2024 e 2025. Por ora, os números da Athenagro consideram uma queda de 500 mil cabeças. No entanto, alguns cenários que estudamos consideram recuo entre 3,5 milhões e 4,5 milhões de cabeças em 2025.
Em 2026, a quantidade de animais voltaria a aumentar em relação a 2025. Os dados do rebanho de 2025 devem ser divulgados apenas em setembro. Até lá, as análises dependem de estimativas e projeções, algumas embasadas em dados de campo e outras lançando mão do comportamento histórico de ciclos anteriores.
Com isso, nos piores cenários analisados pela Athenagro, a queda no rebanho representa menos de 20% do sugerido pelo USDA. Outra possibilidade seria uma eventual revisão nos dados de 2024, por parte do IBGE e do MAPA.
Nesse caso, teríamos que refazer toda a leitura por um erro induzido pelas estatísticas oficiais. Embora ocorram constantes revisões, nunca foi registrada uma alteração em nível tão significativa sobre as estatísticas de rebanho.
É importante reforçar que os dados de 2025 e do início de 2026 comprovam uma realidade menos previsível pelos padrões antigos. O Brasil bateu recorde de abate formal em 2025, aumentou fortemente a participação de fêmeas no total abatido e, ainda assim, não há indício de liquidação crítica do rebanho, mesmo que ocorra recuo no número de cabeças dentro das projeções mais elevadas, conforme descrito anteriormente.
Há quem venha tomando essas afirmações como negação ao ciclo pecuário, numa postura sensacionalista e refratária ao bom debate entre diferentes leituras sobre o mercado. Mas não se trata disso! O ciclo pecuário continua funcionando e vai sempre continuar.
A pergunta que precisa ser respondida atualmente é: o que o produtor, em média, tem feito para aumentar sua produção de bezerros A melhor alternativa, sob a ótica da pecuária moderna, é simplesmente reter fêmeas ou aumentar a produtividade das que já estão no rebanho Em ambos os casos, qual é o nível de tolerância em relação às fêmeas que não emprenham no período de 12 meses
Por fim, é importante reforçar a necessidade de melhorar as bases estatísticas relacionadas à pecuária. Enquanto o Brasil não melhorar a geração dos dados primários, qualquer número de rebanho do USDA, do IBGE ou analisado por empresas do mercado continuará a carregar um intervalo de incerteza maior do que o desejável.
Também é preciso revisar e modernizar os critérios obsoletos de avaliação do uso da terra, cuja produtividade é calculada via estoque do rebanho, através da estimativa de peso por idade dos animais. A pecuária moderna abate mais cedo, gira mais rápido e depende menos de "armazenar" animais envelhecidos nos pastos.
Sendo assim, diante dessas contradições entre leituras do mercado, a postura mais recomendável não é simplesmente aceitar ou rejeitar os números do órgão norte-americano. O importante é interpretá-los como uma aproximação útil, embora insuficiente, de uma pecuária cuja produtividade avançou mais rapidamente do que a maioria das análises projetava.
Os últimos 6 anos colocaram em destaque um fato que não pode ser contestado: o dinamismo do campo está operando numa velocidade que modelagem nenhuma, com base em dados do passado, conseguiu antecipar. Entender a pecuária depende de uma análise mais próxima de quem opera essa aceleração tecnológica. De nada adiantam as ferramentas de inteligência artificial, ou modelos matemáticos ultramodernos, quando os dados que serão inseridos estão defasados ou equivocados.
Maurício Palma Nogueira é engenheiro agrônomo, diretor da Athenagro e coordenador do Rally da Pecuária.

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