04 de outubro de 2026

Enem e vestibulares podem cobrar desastres climáticos; veja como estudar

Educação Vestibular 04/10/2026 09:28 Assessoria Miracomunica

Provas de 2025 e 2026 podem exigir interpretação de dados sobre enchentes, secas e o El Niño. Especialistas de grandes colégios ensinam como conectar geografia, biologia, matemática e história para tirar boa nota neste tema multidisciplinar.

Os fenômenos climáticos deixaram de ocupar apenas os noticiários e passaram a aparecer nas provas dos principais vestibulares do país. Em 2025, o Cemaden classificou o ano como um dos mais extremos das últimas décadas do ponto de vista climático, com recordes de calor e seca prolongada. No mesmo período, o órgão registrou 1.493 ocorrências de desastres ligados a chuvas, como inundações e deslizamentos, nos municípios que monitora.

De forma multidisciplinar, muitas provas têm o costume de cobrar os impactos das mudanças climáticas a partir de diferentes áreas do conhecimento, relacionando conceitos de geografia, história, biologia, física e até questões sociais e econômicas. A Fuvest 2025, por exemplo, usou as enchentes do Rio Grande do Sul para cobrar a transformação de gráficos, e a Unicamp 2025 também levou as enchentes gaúchas à primeira fase. Recorrentemente, as questões sobre desastres climáticos e ambientais são cobradas, especialmente envolvendo assuntos das ciências da natureza e geografia.

Pontos rápidos para estudar clima

  • Muitas provas: O tema é interdisciplinar, ligando geografia, biologia e matemática.
  • El Niño: Fenômeno que altera chuvas e temperaturas no Brasil.
  • Dados: Estudantes devem saber interpretar gráficos e porcentagens de chuvas.
  • História: A Revolução Industrial é a base para entender a crise climática atual.
  • Sociedade: A questão cobra o impacto na desigualdade e no acesso a serviços.

Geografia e a influência do El Niño

Um fenômeno pluvial como a enchente pode envolver Ciências da Natureza (ciclo da água), Geografia (ocupação das cidades) e Matemática (leitura de dados), como explica o coordenador pedagógico da Verbum Educação, Marcos Benfica. No ano de 2026, as questões relacionadas à emergência climática ganharam ainda mais destaque a partir das discussões sobre um "super" El Niño, um episódio mais intenso do que o padrão.

De acordo com a coordenadora de Geografia do Colégio Rio Branco, Fabiana Pegoraro, o conceito geográfico pode ser cobrado desde a identificação das características do fenômeno até a relação entre ele e os impactos sobre o regime de chuvas. "Quando esses fenômenos ocorrem, há uma alteração na evaporação e na liberação de calor das águas oceânicas, o que impacta a umidade, as temperaturas e o sistema de circulação das massas atmosféricas, afetando a distribuição das chuvas", compartilha.

No Brasil, o El Niño costuma causar secas severas nas regiões Norte e Nordeste, e chuvas mais intensas no Sul e Sudeste. Assim, os vestibulares podem partir de questões relacionadas à desigualdade socioespacial. Comunidades indígenas e ribeirinhas podem enfrentar isolamento, enquanto moradores de áreas urbanas vulneráveis estão mais expostos a enchentes e interrupções no acesso à moradia e à saúde.

Impactos em Biologia, Química e Física

Em áreas científicas, as questões geralmente exigem que o candidato enxergue a relação causal entre o fenômeno e seus efeitos sobre os ecossistemas. Segundo Paulo Allil, coordenador de Biologia do Colégio Rio Branco, os vestibulares mais concorridos trazem temas atuais sob uma nova roupagem. "O candidato não pode se limitar a um único ponto. Deve, acima de tudo, tentar desenvolver uma visão mais ampla e sistêmica, formular hipóteses e pensar em soluções", afirma.

Rafael Lucena Lomazi, professor de biologia do Colégio Ábaco, explica que acontecimentos recentes podem ser explorados relacionando o aumento das temperaturas e queimadas no Cerrado à fragmentação de habitats. "Uma questão poderia, por exemplo, apresentar um gráfico sobre o aumento da temperatura global e pedir que o candidato identificasse possíveis consequências para a fauna, a flora e a produção de alimentos. Nesse contexto, seria possível relacionar a redução de agentes polinizadores a impactos sobre a agricultura".

O docente destaca, ainda, que esses assuntos permitem abordar conteúdos de química e física, como a relação entre o derretimento das geleiras, o calor latente e a expansão térmica. Acompanhar as discussões relacionadas à emergência climática ajuda o estudante a interpretar questões que conectam acontecimentos atuais aos conceitos trabalhados em sala.

O papel da Matemática na interpretação

Os desastres climáticos transformam fenômenos que vemos nas notícias em dados que podem ser analisados matematicamente. O vestibular pode cobrar porcentagem, razão e proporção, médias, variações e projeções. Em uma prova, o estudante pode encontrar um gráfico comparando o volume de chuva com a média histórica ou uma tabela com o avanço das queimadas.

Segundo Tainara Dias, Executiva de Negócios Acadêmicos da Casio Educação, para se preparar o aluno deve criar o hábito de observar como os números são apresentados nas notícias: "qual é o período analisado, a unidade de medida, a escala do gráfico e a base usada para calcular um percentual". A executiva compartilha que um erro comum é analisar um número isoladamente, sem entender a base de comparação. "Em questões desse tipo, interpretar corretamente os dados costuma ser tão importante quanto fazer o cálculo".

História, Sociologia e a visão global

Diante da realidade do mundo, não é mais possível pensar em questões ambientais de forma isolada. As universidades têm repensado suas estruturas curriculares, trazendo cursos mais conectados entre conteúdos clássicos e questões ambientais. Questões ambientais estão diretamente relacionadas a processos históricos e políticos, como a Revolução Industrial e a expansão das atividades produtivas.

Vitor Mizuki, professor de Geografia na Beacon School, compartilha: "Os desastres climáticos são as evidências perceptíveis de um processo global que surgiu com os miasmas urbanos da Revolução Industrial. Se no início eles ocorriam em escala local nas cidades europeias, atualmente estamos debatendo as inter-relações de extração, produção, distribuição e descarte ao redor do globo, com ampla desvantagem para o chamado Sul Global". Para ele, ao longo do século XX, empresas deslocaram suas unidades fabris do Norte para o Sul Global em busca de mão de obra mais barata e leis ambientais mais flexíveis. Pensar no entrecruzamento entre economia, política e racismo ambiental pode ser um caminho para compreender questões mais complexas.


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