05 de novembro de 2026

Crise bancária termina em desastre: jovem presidente do Paraguai renuncia ao cargo

Economia Renúncia 05/11/2026 15:32 Jovem Pan jovempan.com.br Assunção

Santiago Peña, o presidente mais jovem do Paraguai na era democrática, renunciou após falência do Ueno Bank. O caso envolveu antigos sócios dele e ameaçou a estabilidade financeira do país, com milhares de clientes perdendo acesso ao dinheiro.

Santiago Peña, economista de direita com 47 anos, renunciou à presidência do Paraguai nesta quinta-feira (5). Ele era o governante mais jovem da era democrática do país. Peña chegou ao poder sob a forte influência de Horacio Cartes, um político veterano e rico empresário do tabaco, que está na lista de sanções dos Estados Unidos como "significativamente corrupto".

O presidente saiu do cargo após o grave escândalo envolvendo o Ueno Bank, uma instituição financeira ligada a antigos sócios dele.

  • Peña estudou Economia no Paraguai e fez mestrado na Universidade de Colúmbia, nos EUA.
  • O Ueno Bank, maior banco digital do país, foi colocado sob intervenção por insolvência.
  • Clientes com economias bloqueadas protestaram nas ruas de Assunção exigindo o dinheiro de volta.
  • O Banco Central bloqueou recursos públicos e restringiu saques de fundos vinculados ao banco.
  • Um processo de impeachment já avançava no Congresso antes da decisão de renúncia.

Ficha técnica e trajetória política do presidente

Alto e com porte atlético, este ex-jogador de rúgbi era considerado um tecnocrata. Ele tinha uma brilhante carreira acadêmica, mas pouca experiência prática na política.

Em seu discurso de posse, Peña prometeu trabalhar pela prosperidade do país. "O sucesso é fazer todos os paraguaios estarem melhor e que o mundo seja testemunha do ressurgimento de um gigante", declarou.

Ao anunciar a saída, o presidente disse que "a história se encarregará de julgar e colocar em sua justa dimensão os acontecimentos que hoje nos cabe viver". Ele afirmou que tomou a decisão pensando na estabilidade do país, na paz social e na preservação das instituições democráticas.

Peña formou-se em Economia na Universidade Católica do Paraguai e fez mestrado na Universidade de Colúmbia, em Nova York. Na experiência internacional, atuou no departamento para a África do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington.

Entre 2000 e 2009, foi funcionário do Banco Central. Em 2012, integrou a diretoria do BC. Em 2014, foi nomeado ministro da Fazenda por Cartes, que o fez se filiar ao Partido Colorado, legenda conservadora que domina a política paraguaia desde o século XIX.

Disputa de poder e perfil pessoal

Em 2017, Peña perdeu para Mario Abdo Benítez a vaga na candidatura presidencial durante as primárias. Ele recuperou essa oportunidade quatro anos depois.

Seus adversários políticos costumavam chamá-lo de "secretário de Cartes", mas isso parecia não afetá-lo. Um colaborador disse à AFP: "É alguém muito sereno, impressiona sua tranquilidade".

Família e valores conservadores

Filho do economista José María Peña e da argentina Ana María Palacios, o presidente era o caçula de três irmãos.

Ele era casado com Leticia Ocampos. O casal teve seu primeiro filho, Gonzalo, antes de Peña completar 18 anos. Eles também têm uma filha, Costanza, de 16 anos.

De moral conservadora, Peña era contra o aborto, que classificava como "um atalho, o caminho mais fácil". Ele também rejeitava o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

"Defendo a família em sua composição tradicional: mãe, pai e filhos", afirmou à AFP.

Recentemente, ele apoiou o Congresso, que rejeitou uma doação de 38 milhões de euros (cerca de R$ 207 milhões) para um projeto educacional. A recusa ocorreu porque o projeto utilizava a linguagem inclusiva.

"Não se pode suscitar na criança, desde cedo, que quem quer ser menino se sente menino e quem se sente menina é menina. Não. A rede escolar não pode mudar isso. Valorizamos quando alguém vem doar dinheiro, mas o dinheiro não pode condicionar nosso estilo de vida e nossas crenças", disse ele.

Desculpas públicas e risco de afastamento

O paraguaio também pediu desculpas à população. "Também quero pedir desculpas ao povo se em algum momento falhei. Nunca foi minha intenção defraudar a confiança que depositaram em mim. Todos os dias assumi esta responsabilidade com a vontade de trabalhar pelo Paraguai".

Ele concluiu: "Mas hoje minha prioridade é uma só: a tranquilidade dos paraguaios que confiaram suas economias no nosso sistema financeiro".

Antes do anúncio da renúncia, um processo de impeachment contra Peña avançava no Legislativo. A principal bancada governista divulgou que apoiava a saída do presidente.

Horacio Cartes, presidente da Associação Nacional Republicana (ANR) e do Partido Colorado, afirmou em comunicado no X: "Não estaremos ao lado do saque dos fundos públicos, privados e dos aposentados". Ele disse que a legenda apoiará o julgamento político para "reconduzir a institucionalidade da República".

A Câmara iniciava a sessão para analisar a acusação contra Peña pela manhã. Segundo o jornal paraguaio ABC Color, a adesão da bancada, com 35 deputados presentes, somou-se ao apoio dos demais grupos. Isso abriu a possibilidade de votação unânime.

Para encaminhar o processo ao Senado, são necessários dois terços dos votos dos deputados presentes. A eventual destituição dependeria do julgamento pela Câmara Alta.

Entenda a crise bancária que levou à queda

Na terça-feira (3), milhares de paraguaios foram às ruas de Assunção. Eles cobravam a liberação de seu dinheiro do Ueno Bank, um dos maiores bancos digitais do país.

A instituição foi colocada sob intervenção depois de ser considerada insolvente. Ou seja, sem capacidade de honrar seus compromissos.

O Banco Central do Paraguai determinou o bloqueio de recursos públicos e das economias de milhões de clientes. Na quarta-feira (4), o órgão suspendeu temporariamente os saques de dinheiro de determinados fundos de investimentos vinculados ao Ueno Bank.

A instituição financeira atendia quase metade dos 6,4 milhões de paraguaios.

O órgão comunicou que fará um adiantamento da garantia do Fundo de Garantia de Depósitos aos poupadores do Ueno Bank. A antecipação será de até 40 salários mínimos. Dívidas pendentes com a instituição serão deduzidas do valor.

A Justiça do Paraguai determinou a prisão preventiva de oito suspeitos de envolvimento na crise. Dentre eles, estão Juan Manuel Gustale, presidente do Ueno Bank, e Federico Miguel Vázquez, diretor-executivo da instituição.


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