O Governo da Bahia tornou oficial o tombamento do Terreiro Zoogodô Bogum Malê Hundó, um importante templo de candomblé da tradição Jeje-Mahi, localizado no bairro do Engenho Velho da Federação, em Salvador. A medida foi publicada no Diário Oficial do Estado e reconhece o valor histórico e cultural do local, que agora está protegido por lei. O processo para esse reconhecimento começou em 2019 e contou com a aprovação do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC) e do Conselho Estadual de Cultura. O terreiro é conhecido por suas particularidades, como o uso da língua eué nos rituais (em vez do iorubá) e a adoração aos voduns, divindades da cultura Jeje. A líder do terreiro, Mãe Índia, comemorou a decisão, afirmando que ela valoriza a luta e a resistência de seus antepassados.
O Governo do Estado da Bahia decretou, nesta sexta-feira (31 de julho de 2026), o tombamento oficial do Terreiro Zoogodô Bogum Malê Hundó. A medida reconhece a importância histórica e cultural deste templo religioso de tradição Jeje-Mahi. A notícia foi publicada no Diário Oficial do Estado.
- O terreiro fica no Engenho Velho da Federação, em Salvador, e agora é um bem tombado pelo IPAC.
- O processo de tombamento começou em 2019 e foi aprovado pelo Conselho Estadual de Cultura.
- Diferente da maioria dos candomblés, os rituais são em eué (língua do povo fon) e adoram os voduns, não os orixás.
- A líder do terreiro, Mãe Índia, diz que o tombamento é uma vitória contra o apagamento da história e da cultura.
- O nome "Bogum" pode significar "lugar dos fons" e o local também tem ligação com a Revolta dos Malês, de 1835.
Localizado na tradicional Ladeira do Bogum (Rua Manoel do Bonfim, nº 35), no bairro do Engenho Velho da Federação, em Salvador, o espaço agora passa a integrar o Livro do Tombamento dos Bens Imóveis do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC).
O tombamento é resultado de um processo iniciado em 2019, que contou com propostas do IPAC e do Conselho Estadual de Cultura. Com a publicação do decreto, o IPAC pode tomar todas as medidas legais para garantir a preservação deste importante patrimônio da cultura afro-brasileira na Bahia.
O que torna o Terreiro do Bogum especial
O Terreiro do Bogum é da tradição Jeje-Maí do Candomblé e é um dos mais tradicionais e únicos de Salvador. Ele preserva elementos culturais e religiosos próprios da nação Jeje, que o diferenciam da maioria dos outros terreiros da capital baiana.
Uma das diferenças mais marcantes está na língua usada nos rituais. Enquanto a maioria dos candomblés da Bahia segue a tradição nagô e usa o iorubá, no Bogum os cânticos e cerimônias são feitos em eué, idioma do povo fon, da região do antigo Daomé (atual Benim). Além da língua, os ritos também têm particularidades: no Terreiro do Bogum não se cultuam os orixás, mas sim os voduns, divindades com nomes e práticas específicas da tradição Jeje.
A atual líder do terreiro é a Doné Zaildes Iracema de Mello, conhecida como Mãe Índia, que assumiu o cargo em agosto de 2003. Para ela, o reconhecimento do Estado valoriza a memória e a resistência de seus antepassados. "Minhas ancestrais, minhas mais velhas, construíram este lugar de luta, resistência e empoderamento. Este tombamento é um avanço para as construções históricas que meu povo fez e faz até hoje", afirma.
Proteção contra o avanço da cidade
A proteção legal também funciona como um escudo contra o desaparecimento do território. Mãe Índia lembra que a área original do terreiro era muito maior, indo do final da linha do Engenho Velho da Federação até a Vasco da Gama. Com o crescimento descontrolado da cidade, a comunidade precisou se adaptar, mas manteve sua originalidade. "O candomblé é mantido pela força ancestral da natureza. Acredito que este tombamento vai garantir que não diminuamos ainda mais nossa relação com a natureza", alerta.
A história do terreiro tem lideranças femininas lendárias, como Mãe Emiliana, Mãe Nicinha e Doné Maria Valentina dos Anjos Costa (Mãe Runhó). Mãe Runhó é tão importante que tem uma praça com seu nome perto do terreiro, com uma estátua em sua homenagem.
O local também tem importância histórica por sua ligação com a Revolta dos Malês, de 1835. Segundo a tradição, foi ali que Joaquim Jeje, um dos participantes da revolta, escondeu um baú (conhecido como bogum) com doações que ajudaram a financiar o levante. A Revolta dos Malês foi organizada por africanos muçulmanos escravizados, muitos alfabetizados em árabe, que queriam criar um governo de inspiração africana no Brasil, mas foram descobertos.
Outra tradição do terreiro é a missa em homenagem a São Bartolomeu, realizada há cerca de dois séculos. O calendário de festas do Terreiro do Bogum começa em 1º de janeiro e vai até meados de abril, com várias celebrações da tradição Jeje.
Em 2024, a história do Terreiro do Bogum ganhou destaque nacional ao ser homenageada pela escola de samba Unidos do Viradouro, campeã do Carnaval do Rio de Janeiro, com o enredo "Arroboboi, Dangbé". A escola exaltou o terreiro como um dos pilares do Candomblé Jeje e símbolo da herança africana na Bahia.
Olhando para o futuro, Mãe Índia reforça que o amanhã do Bogum está ligado ao acolhimento da comunidade. "Não basta ser terreiro, tem que ter uma ação social que abrace a comunidade. Este espaço para o futuro está sendo construído agora, mostrando que o candomblé e a Nação Jeje-Mahi estão vivos. As novas gerações vão preservar este lugar, que tem mais de 300 anos de tradição", conclui.

Divulgação FGM






