07 de junho de 2026

El Niño traz medo de nova tragédia na serra do Rio

Cidades clima 07/06/2026 09:06 Selma Schmidt extra.globo.com

Cientistas estão fazendo estudos sobre o Super El Niño, um fenômeno que preocupa quem viveu a tragédia de 2011, quando mais de 900 pessoas morreram na região serrana do Rio. As pesquisas mostram que pode haver calor muito forte, chuvas pesadas e eventos climáticos mais perigosos, enquanto comunidades pobres acompanham o fenômeno com muito medo.

Um grande desastre natural, a maior tragédia com mortes no Brasil, foi a chuva de 2011 na Região Serrana do Rio, que matou mais de 900 pessoas. Isso ainda está na cabeça de quem mora lá. Depois, vieram outras tempestades que também mataram. Agora, 15 anos depois, grupos de moradores estão com outro medo: a chegada do super El Niño, um fenômeno que aquece as águas do Oceano Pacífico perto da linha do Equador. Cientistas de universidades do Rio e do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) estão muito preocupados e fazendo estudos para entender o que pode acontecer, principalmente em lugares frágeis como a Serra.

  • O El Niño é um fenômeno que aquece o Oceano Pacífico e muda o clima no mundo inteiro.
  • Em 2011, uma tragédia na Região Serrana do Rio matou mais de 900 pessoas por causa de deslizamentos.
  • Cientistas preveem que o El Niño pode causar calor extremo e chuvas fortes no Rio de Janeiro.
  • Áreas de risco, como encostas, continuam sendo ocupadas por moradores, o que aumenta o perigo.
  • As prefeituras estão fazendo obras, mas moradores ainda se sentem desprotegidos e com medo.

Segundo uma agência dos Estados Unidos (NOAA), tem 82% de chance de o El Niño se formar até julho. Márcio Cataldi, coordenador do Lammoc (Laboratório de Monitoramento e Modelagem de Sistema Climático) da UFF (Universidade Federal Fluminense), explica que, pelos estudos, o fenômeno pode ser forte no Brasil, inclusive no Rio de Janeiro.

Ele disse: "Junho, julho e começo de agosto costumam ser muito secos. Mas este ano devem ser mais chuvosos que o normal. O período seco vai atrasar, começando em agosto e indo até o começo de dezembro. Deve ter um tempo seco longo, com ondas de calor e risco de incêndios. A partir da segunda quinzena de dezembro, quando o El Niño começar a esfriar o Pacífico, é que vem o maior risco de chuvas longas."

Como o El Niño pode afetar a Região Serrana

Cataldi também explica que a Região Serrana do Rio, que costuma ser fresca, pode ter temperaturas altas entre agosto e começo de dezembro. Depois, assim como a capital, pode ter ZCAS (Zonas de Convergência do Atlântico Sul), que são nuvens que vão da Amazônia ao Oceano e trazem chuvas fortes e constantes.

Ele diz que essas previsões podem mudar, porque ainda é muito cedo. "Mas isso é o que se tem hoje."

Tempestades relâmpago e perigo nas montanhas

O meteorologista Fabio Hochleitner, do Lamce (Laboratório de Métodos Computacionais em Engenharia) da UFRJ, alerta para o aumento de temperatura que pode acontecer na Região Serrana por causa do El Niño a partir de meados de agosto. Ele lembra que o calor forte pode criar tempestades rápidas e localizadas, chamadas de tempestades convectivas (quando o calor faz a umidade do solo evaporar e forma nuvens grandes).

"Esses episódios são piores com o El Niño, podendo causar granizo, raios e ventos fortes. Em áreas mais montanhosas de Petrópolis e Teresópolis, podem provocar enxurradas. Além da descida de terra dos morros, pode haver aumento do nível e transbordamento dos rios", analisa Hochleitner.

Ele diz que ainda estão sendo feitos estudos para entender melhor o impacto do El Niño no Rio de Janeiro, que fica entre o Norte, o Nordeste e o Sul do país, regiões que devem sofrer mais com o fenômeno.

Intensificação aos poucos e incertezas

Já Marcelo Seluchi, coordenador geral de Operações e Modelagem do Cemaden, afirma que ainda não dá para dizer que o El Niño já começou, mas que ele vai aparecer e se fortalecer aos poucos. Segundo ele, ainda é cedo para saber o tamanho da força que ele vai ter.

"A expectativa é que isso aconteça no fim deste ano ou começo do próximo. E existe uma chance de ser um fenômeno forte, mas ainda é cedo para ter uma previsão sobre a intensidade. Na verdade, hoje sabemos muito pouco sobre os impactos desse fenômeno."

Seluchi usa o que aconteceu em anos de El Niño para tentar prever: "Normalmente, a Amazônia e o Nordeste sofrem com secas em anos de El Niño, e o Sul tem chuvas acima do normal. O Rio de Janeiro não é claramente afetado. As chuvas podem se tornar mais irregulares, com momentos de chuva mais forte e outros sem chuva, mesmo na estação chuvosa."

Ele diz que, independentemente do que possa acontecer, a Região Serrana e o Rio como um todo precisam se preparar para as estações chuvosas.

Construções em áreas de risco continuam

Enquanto os cientistas estudam, na Região Serrana, mesmo com as tragédias, as construções em áreas de risco não pararam. Na BR-116, em Teresópolis, por exemplo, há casas coladas na rodovia. Nos bairros Caleme e Rosário, que foram muito afetados em 2011, há casas se acumulando nas encostas.

Lucineia da Silva, líder do movimento popular de apoio às vítimas da tragédia em Teresópolis, lamenta: "O Caleme sofreu com as chuvas de 2011 e, mesmo assim, depois da tragédia, foram feitas muitas construções. Muitos voltaram para casas interditadas, outros venderam ou alugaram. No Caleme, estão construindo vários condomínios e destruindo a mata. É muito triste. Estamos preocupados com o El Niño, porque há muitos morando em área de risco."

Uma situação parecida acontece em Nova Friburgo.

Luiz Cláudio Rosa, presidente voluntário do Instituto Friburgo Solidário, afirma: "Em grandes centros, na beira de rodovias, onde o poder público passa todos os dias, deixam acontecer essas ocupações em áreas de risco. Estamos preocupados, porque o volume de chuva que tem caído já é muito alto."

'A gente acaba ficando invisível'

Cláudia Renata Ramos, presidente do Movimento do Aluguel Social e Moradia de Petrópolis e da Comissão das Vítimas das Tragédias da Serra, conta que bairros do Alto da Serra (como Chácara Flora, Rua Nova, 24 de Maio, Morro dos Ferroviários, Lopes Trovão e Frei Leão) e o Vale do Cuiabá tiveram casas interditadas e não demolidas, que foram reocupadas, alugadas ou vendidas.

"Qualquer alerta de chuva, fico preocupada. A gente acaba ficando invisível. Em Petrópolis, temos 72 mil pessoas morando em áreas de risco e três mil esperando receber casa desde a tragédia de 2011. Sempre que chove, ruas alagam. O que fazem é paliativo, não tem eficiência. Até o centro histórico passou a alagar perto da rodoviária."

O que as prefeituras estão fazendo

A Prefeitura de Petrópolis informa que comprou um radar meteorológico, usado pela Defesa Civil. Sobre obras, desde o ano passado, 45 intervenções de contenção e drenagem estão em andamento ou tendo projetos feitos, com investimento de quase R$ 62,5 milhões.

A Prefeitura de Nova Friburgo diz que, desde 2011, o município não registra morte por eventos climáticos. Informa ainda que, em janeiro, lançou a pedra fundamental das obras da chamada 'Barreira Sabo', com tecnologia japonesa, para segurar o fluxo de detritos, com recursos do PAC.

A Prefeitura de Teresópolis destaca que a Defesa Civil "mantém uma política permanente de prevenção, monitoramento e preparação para eventos climáticos extremos". Entre as principais ações está a elaboração e implementação do Plano Municipal de Redução de Riscos.

Colaborou: Carmélio Dias


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