08 de novembro de 2026

Campo captura carbono, mas governo aposta no petróleo; entenda o impasse

Artigos Carbono 08/11/2026 11:10 Miguel Daoud, Canal Rural canalrural.com.br

O Fórum Planeta Campo debateu a transição energética. O artigo analisa a incoerência entre a agenda verde do governo e a aposta no petróleo, e cobra metas, orçamento e regras claras para o produtor rural.

O Brasil quer liderar a produção sustentável de alimentos e, ao mesmo tempo, ampliar sua presença no mercado mundial de petróleo. Essas duas ambições precisam de uma explicação clara do governo: como serão conciliadas, por quanto tempo e com quais resultados para o clima

Essa discussão interessa diretamente ao produtor rural. Quem planta, cria e investe no campo depende de condições climáticas que permitam planejar.

Rapidinhas para entender o assunto:

  • O Fórum Planeta Campo, do Canal Rural, chegou à 6ª edição em 6 de novembro, no Jockey Club de São Paulo, com o tema Além do Alimento: Biocombustíveis e a nova era do agro.
  • O campo pode ajudar a guardar carbono no solo, recuperar pastagens e produzir etanol, biodiesel, biogás e biometano.
  • Ao mesmo tempo, o governo brasileiro fala em ampliar a exploração de petróleo, inclusive na Foz do Amazonas, onde a Petrobras anunciou descobertas no poço Morpho.
  • A COP30, presidida pelo Brasil, apresentou em 3 de novembro mapas para reduzir combustíveis fósseis e enfrentar o desmatamento.
  • Para o produtor investir, são necessários crédito acessível, assistência técnica, regras confiáveis e continuidade das políticas públicas.

Quando esse planejamento perde confiabilidade, aumentam os riscos, o custo do crédito e a dificuldade de contratar seguro. A conta chega à produção e ao preço da comida.

O clima já mudou a conta

O conhecimento científico já estabeleceu que as emissões humanas de gases de efeito estufa aquecem a atmosfera e os oceanos, alterando os extremos climáticos. Isso não significa atribuir qualquer tempestade ao aquecimento global. Significa reconhecer que continuamos tomando decisões de longo prazo diante de riscos que estão mudando.

Cidades, estradas, sistemas de abastecimento e calendários agrícolas foram organizados com base no comportamento histórico do clima. À medida que esse comportamento se altera, precisamos rever investimentos e a própria ocupação do território. Há consequências para a saúde, a segurança das famílias e a capacidade de produzir alimentos.

O campo mostra o caminho. Falta dar escala

Foi nessa direção que o Canal Rural realizou, em 6 de novembro, no Jockey Club de São Paulo, a sexta edição do Fórum Planeta Campo. O tema, Além do Alimento: Biocombustíveis e a nova era do agro, colocou em discussão uma oportunidade concreta para o país.

O encontro reuniu lideranças da produção, da indústria e do poder público para discutir biocombustíveis, inovação, financiamento e segurança regulatória. O Canal Rural merece reconhecimento por aproximar quem produz, quem transforma e quem precisa formular políticas capazes de sustentar esses investimentos.

Etanol, biodiesel, biogás e biometano permitem ao campo ampliar sua participação na oferta de energia. Mas o avanço depende de crédito e de regras confiáveis. No fórum, esses entraves apareceram com clareza: o produtor precisa ter condições de investir e confiar que os compromissos assumidos serão cumpridos.

Há também tecnologias para melhorar o balanço de carbono da agropecuária. Recuperar pastagens, conservar o solo e integrar lavoura, pecuária e floresta pode aumentar o armazenamento de carbono e reduzir emissões. O Brasil tem pesquisa e políticas voltadas a esse caminho, como o Plano ABC+.

Isso exige medição e continuidade. A agropecuária também emite gases de efeito estufa, e seus avanços precisam ser demonstrados. Reconhecer esse desafio dá credibilidade à defesa do setor e valoriza quem está investindo para produzir melhor.

A promessa de uma nova Dubai exige explicações

Ao mesmo tempo, cresce a expectativa com a expansão petrolífera no norte da América do Sul. Reportagem do Estadão publicada em 3 de novembro tratou do potencial do Amapá para se tornar um centro logístico dessa fronteira, associada à expressão nova Dubai.

A Petrobras já anunciou descobertas no poço Morpho, na bacia da Foz do Amazonas. Há potencial econômico, mas encontrar petróleo ainda exige avaliações antes de comprovar a dimensão comercial de uma nova área produtora. A expectativa precisa ser tratada como expectativa.

O Brasil tem competência em exploração marítima e razões econômicas para avaliar essa riqueza. O petróleo gera exportações, arrecadação, empregos e divisas. Um país com tantas carências sociais não pode simplesmente ignorar essa receita.

O que cobro do governo é uma estratégia que concilie essa necessidade econômica com os compromissos climáticos que o Brasil assume.

Enquanto o campo busca armazenar carbono no solo e substituir combustíveis fósseis, a expansão petrolífera coloca em circulação carbono que estava guardado no subsolo. Ao ser queimado, o combustível libera CO. A competência para extrair petróleo com eficiência não elimina essa consequência.

Tampouco o carbono armazenado numa propriedade compensa automaticamente as emissões do petróleo. Essa conta depende de quantidade, permanência e verificação. Não se pode transformar o esforço do produtor em justificativa genérica para ampliar emissões em outras atividades.

Se o petróleo financia a transição, onde está o dinheiro

A cobrança ganha força diante de um fato recente: em 3 de novembro, a presidência brasileira da COP30 apresentou mapas do caminho para o afastamento dos combustíveis fósseis e o enfrentamento do desmatamento. O compromisso anunciado precisa orientar as decisões de investimento do próprio país.

É possível manter a produção de petróleo durante uma transição. Mas chamar esse período de transição exige mostrar o destino, estabelecer etapas e explicar como a dependência dos fósseis será reduzida. Expandir a oferta indefinidamente, apenas adicionando projetos renováveis, não basta para demonstrar essa mudança.

Se o governo sustenta que o petróleo ajudará a financiar a transformação energética, precisa dizer quanto da receita será destinado a isso, por qual mecanismo e sob qual fiscalização. A sociedade deve conseguir acompanhar o dinheiro e cobrar os resultados.

O mesmo vale para o agro. Não há coerência em pedir investimentos em energia renovável e agricultura de baixa emissão enquanto faltam financiamento acessível, assistência técnica e previsibilidade. O discurso ambiental precisa aparecer no orçamento.

O compromisso precisa sobreviver às eleições

Precisamos de uma política de Estado. Uma usina, uma floresta plantada ou uma nova estrutura industrial exige anos de investimento. A orientação do país não pode mudar a cada troca de governo, deixando o produtor e o investidor sem saber quais regras valerão amanhã.

O Fórum Planeta Campo mostrou caminhos e disposição para avançar. A discussão nacional precisa agora enfrentar a compatibilidade entre esses esforços e as escolhas feitas para o petróleo.

A sociedade tem o direito de saber qual desenvolvimento está sendo construído e quais riscos está assumindo. E o produtor não pode ser chamado a responder pelo clima enquanto o restante da política econômica segue sem prestar a mesma conta.

De conversa bonita, já temos bastante. Cabe ao governo apresentar metas, orçamento e resultados, e ao Congresso dar estabilidade a esse compromisso.


Aa

Receba atualizações

no seu e-mail